Da esquerda para a direita, passando pelo ‘centrão’, não há atores relevantes que minimizem a gravidade da situação político-econômica do governo Dilma Rousseff. A encruzilhada em que a sociedade brasileira se encontra tem ocupado espaço suficiente para ofuscar quaisquer outras pautas que não estejam diretamente relacionadas a ela. A crise institucional se mistura com dilemas complexos como a crise da representação, a falta de projetos nacionais para amplas parcelas da população e investigações de corrupção conduzidas de maneira atabalhoadas, criticadas por um lado por sua morosidade e por outro pelo caráter seletivo e excessivamente midiático, usando e abusando de vazamentos e operações espalhafatosas.

Em um contexto de recuo da atividade econômica comparável apenas ao primeiro biênio da década de 1930, o segundo mandato de Dilma Rousseff é a melhor definição de uma tempestade perfeita.  O estilo de liderança e os paradoxos do partido da mandatária brasileira pouco colaboram para a melhora do cenário, queimando pontes com aliados e fazendo um governo distinto do esperado por parte considerável daqueles que se mobilizaram em sua torno de sua reeleição. Somado a isso, o clima de instabilidade metabolizado por diversas forças sociais e pelos setores da oposição, colocam o país em uma situação de impasse, repleta de incertezas de solução complexa, aparentemente sem chances de evitar profundas marcas na travessia para a normalização.

Nesse cenário, a inserção brasileira passou a ser condicionada como poucas vezes no período recente pela maré interna, especialmente após uma longa fase de crescimento econômico patrocinado, em grande parte, pelo ciclo virtuoso do preço das commodities no mercado internacional. Prejudicada pelo enfraquecimento da capacidade do Estado em patrocinar o modelo de desenvolvimento, o encerramento daquela fase significou o fim da expansão de conquistas sociais dos governos petistas, que, na ausência de profundas reformas ou alterações no status quo, impossibilitou qualquer alternativa factível.

A responsabilização dos ‘ventos externos’ se transformou em mantra para a alta cúpula do governo e seus defensores, até que o desenrolar dos fatos demonstrou, especialmente no período pós-eleitoral, o alcance limitado da justificativa. Apesar do fundamento equivocado não ter servido para explicar a essência dos desafios daquele contexto, os primeiros meses de 2016 demonstram que as transformações regionais e globais, nas esferas econômicas e geopolíticas, colocaram a turbulência externa novamente no epicentro das problematizações.

Primeiramente, no ambiente sub-regional há uma visível mudança de alinhamento e de inclinações ideológicas no plano governamental. Ainda que a constelação de lideranças que ascenderam ao poder após a década de 90 guardasse mais diferenças do que semelhanças, tanto nos meios quanto nas finalidades de suas ações, havia neles um esforço de coordenação patrocinado pela ideia geral de combater as reformas estruturais do período anterior e promover um modelo estrutural de integração. A derrota de Daniel Scioli, candidato apoiado pelo kirchnerismo na Argentina, sendo acompanhado dos últimos resultados eleitorais especialmente na Venezuela e na Bolívia, marcaram uma inflexão que mexeu na aparente harmonia. Ainda que a coordenação desses governos por vezes fosse limitada apenas ao campo retórico, o novo momento resulta em novos desafios, colocando a diplomacia do governo Dilma Rousseff em alerta.

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A mudança de cenário na América do Sul se relaciona diretamente com a diminuição do apetite chinês pelos produtos da região, enfraquecendo as economias e as fontes de financiamento, abrindo espaço para zonas de contestação interna. Ainda que não fosse imprevisível, a desaceleração do gigante asiático é um novo sintoma nesse quadro, que, somado aos desdobramentos geopolíticos diretamente relacionados a grandes produtores de petróleo, arruína as principais bases de desenvolvimento.

Novamente os axiomas do livre-mercado e da diminuição do papel do Estado voltaram ao foco, revitalizando os debates sobre a criação de acordos de comércio e reformas estruturais internas. A valorização do dólar frente às principais moedas do sul global e as políticas de ajuste recessivos, sem o devido contraponto propositivo das forças políticas, reforçaram a sensação de aperto e arrocho.

Em escala global, as economias do centro capitalista voltaram a apresentar sinais de esgotamento dos principais mecanismos que garantiram a saída da crise de 2008, levando a medidas impensáveis como a adoção de taxas nominais negativas de juros. Além disso, vários dos fundamentos responsáveis pelas graves adversidades do final da última década não foram verdadeiramente resolvidos, persistindo os problemas da especulação desenfreada, o lobby do mercado financeiro e a falta de regras que disciplinem o processo de concessão de crédito nas suas mais variadas formas.

O cenário internacional se deteriorou significativamente sem que haja capacidade brasileira de influenciar essas mudanças, restando ao país apenas se adaptar à nova realidade. Internamente, a narrativa de atribuir culpa aos fatores externos está esgotada, consumindo um recurso importante no diálogo com a sociedade, mesmo que as variáveis tenham se alterado em forma e intensidade, gerando uma sensação disseminada de incerteza. Sem os seus principais vetores de internacionalização econômica, alijados de sua capacidade de intervenção por efeito da Operação Lava-Jato, o governo Dilma Rousseff parece não dispor de reservas de poder para se colocar em uma conjuntura que tire o país dessa situação. Acontecerá o mesmo com qualquer outro que venha a sucedê-lo, especialmente se houver uma eventual quebra da institucionalidade.

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