“Não podemos admitir novas aventuras antidemocráticas [em nosso continente]”, disse Lula no Palácio do Planalto. Era julho de 2010, e o presidente estava no auge de sua influência pessoal.

Enquanto se arrumava para tirar foto oficial ao lado de Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, decidiu fazer uma brincadeira: “Com certeza vai ter manchetezinha amanhã: Presidentes do ‘eixo do mal’ celebram encontro”.

Naquele momento, o auge não era apenas da influência pessoal do presidente, mas também da capacidade de o Brasil moldar seu ambiente externo.

O país estava longe de ser uma potência regional clássica. Não tinha recursos militares para impor sua vontade à marra na vizinhança, como o faz a Rússia a sua volta.

Tampouco tinha disposição para custear instituições regionais densas e com capacidade de resolver de modo eficaz os problemas típicos da ação coletiva, como o faz a Alemanha na Europa.

No entanto, o Brasil tinha, sim, condições de organizar o seu entorno regional.

Parte dessa história era econômica. O ABC paulista virara o centro de gravidade da atividade industrial na América do Sul, e o país gozava da posição de principal comprador, vendedor e investidor em seus principais vizinhos.

Mais que isso, o ajuste fiscal exitoso de FHC e do primeiro governo Lula haviam arrumado as contas públicas, principal recurso de poder do Brasil no sistema regional. Contas arrumadas, afinal, alinham as moedas dos vizinhos ao real e abrem as portas para um tipo de interdependência econômica que é sempre benéfica aos interesses brasileiros.

Parte da história era política. O Brasil da época havia construído um acervo sólido de contribuições à estabilidade regional. Montara uma parceria inédita com a Argentina e criara uma rede de relacionamentos antes impensável. A integração regional ocorria por meio de grandes obras de infraestrutura com capital e tecnologia do país.

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Isso, por sua vez, permitia ao Brasil jogar seu peso em favor das regras do jogo que mais lhe convinham, como é o caso da norma da democracia.

Aquele mundo, entretanto, acabou. E com sua morte chegou ao fim também o ordenamento regional inventado em Brasília desde os primeiros anos da Nova República.

Nossa incapacidade de reagir ao descenso da Nicarágua de Ortega ao autoritarismo mais escancarado —assim como ocorreu com a crise da Venezuela — apenas ilustra o problema.

A norma democrática está rachada e novos conflitos pipocam por toda a vizinhança, mas o Brasil não mais funciona como âncora da estabilidade regional.

Um dia, essa situação será revertida. Por enquanto, trata-se do fim de uma era.


Publicado na Folha de S. Paulo, 19/07/2018.

Professor de Relações Internacionais na FGV. Trabalhou para a ONU antes de completar o doutorado em Oxford.