Uma das obras clássicas essenciais para a compreensão das relações internacionais é Vinte Anos de Crise, publicada em 1939 por Edward H. Carr. A intenção do autor era compreender a conjuntura pautada pela instabilidade e insegurança da política internacional no período posterior à Primeira Guerra Mundial. Seu diagnóstico estabelece uma crítica aos estadistas da época, incapazes de se adaptarem ao novo cenário que se delineava no alvorecer do século XX, no qual as condições que haviam tornado possível a ordem oitocentista tinham entrado em colapso.

O anacronismo identificado pelo autor pode ser facilmente transplantado para o cenário contemporâneo, tendo em vista a incapacidade dos políticos atuais para reagir a fenômenos hodiernos sem recorrer a políticas ultrapassadas e que já se provaram ineficientes. O grande paradigma para a compreensão disso pode ser percebido não somente na maneira pela qual a França de François Hollande reagiu aos atentados de Paris, emulando a retórica e, de certa forma, a prática de George W. Bush, 14 anos atrás, como também no comportamento de grande parte dos dirigentes europeus, que logo após os ataques a Paris fecharam suas fronteiras aos fluxos de refugiados e imigrantes.

A organização por trás das ações violentas em Paris é o autoproclamado Estado Islâmico (ou Daesh), organização derivada da ala mais radical da Al-Qaeda, e que possui como objetivo o estabelecimento de um Califado na região que ocupa. A vertente territorial, expressa na própria alcunha do grupo, é uma característica que o diferencia da organização mais comumente identificada em grupos terroristas, pautados pela descentralização e pela lógica de pulverização em redes. Ocupando territórios substanciais no Iraque e na Síria, o EI amplificou sua causa por meio de ações extremamente violentas divulgadas pela internet, assim como assumindo a autoria dos atentados de Paris e da derrubada de um avião russo no Egito.

O EI mantém suas operações por meio do contrabando de petróleo e de doações de simpatizantes. Vem se fragilizando ultimamente devido aos constantes bombardeios de França, EUA e Rússia, à resistência de curdos e xiitas, e à queda do preço internacional do petróleo. Com efeito, um dos elementos adicionais que vêm enfraquecendo o EI é a fuga das populações residentes nos territórios que ocupa.

Qualquer Estado na ordem internacional requer, invariavelmente, três requisitos básicos: território, governo e população. O primeiro item vem sendo ampliado pelo EI, mas isso vem ocorrendo à revelia dos itens posteriores. Esse argumento fica explícito ao se analisar os dados da recente ocupação da cidade líbia de Sirte, originalmente com 70 mil habitantes, dos quais restaram apenas 10 mil após a ocupação de 2 mil combatentes do Daesh. Relatos recentes dão conta da deterioração dos serviços públicos prestados pelo grupo, que impactam diretamente a condição de vida da população residente dos territórios ocupados pelo grupo, o que gerou um mercado negro de traficantes, responsáveis por contrabandear pessoas para as regiões fora do controle do grupo. O EI pune severamente esses atos e busca desmobilizar prontamente as redes de contrabando, publicizando sua repressão de maneira violenta, de forma a desestimulá-los. O número de deserções em seus quadros e fuga da população, no entanto, vem crescendo.

O EI é o grande responsável pela Síria ser atualmente a maior fonte de refugiados no mundo, com mais de 4 milhões de pessoas, das quais cerca de 300 mil se dirigiram à Europa, além de mais de 7 milhões de deslocados internos, segundo dados do ACNUR. A fuga em massa dos territórios que ocupa é extremamente prejudicial ao EI, que vê não apenas sua causa perder legitimidade como também tem de lidar com o desmantelamento das estruturas sociais e econômicas locais. Já é patente a falta de profissionais qualificados para extrair petróleo nas regiões ocupadas pelo grupo. Tais pontos não serão o que eventualmente levará ao colapso do EI, mas é certo que fragilizam um grupo que já sofre pressão sistemática da comunidade internacional.

Leia mais:  O Estado Islâmico depois de Mossul

Remontando aos argumentos iniciais do texto, o que se percebe é a evidente incapacidade dos governos europeus de se aproveitarem do trade off enfrentado pelo EI entre a expansão territorial e a governabilidade das populações sob seu domínio. A resposta imediata de grande parte da União Europeia aos atentados de Paris foi o fechamento de fronteiras e o “controle sistemático” da entrada e saída de refugiados e imigrantes no bloco e nos países fronteiriços com a Síria, como a Turquia, recrudescendo um processo que já vinha pautando as políticas europeias perante as populações deslocadas, como o site do NEAI recentemente demonstrou no artigo “Fechem as fronteiras! Os imigrantes estão chegando”, de Vanessa Capistrano.

O passaporte Sírio encontrado próximo aos locais dos atentados de Paris e a declaração do EI de que centenas de seus membros se infiltraram na Europa em meio ao fluxo de deslocados foram os pretextos necessários para a radicalização do processo de securitização com o qual o bloco europeu lida com a questão dos refugiados e imigrantes. Os líderes dos países da UE não levaram em conta, entretanto, que um dos resultados esperados pelo EI com as ações em Paris era justamente esse. Dificulta-se o acesso de refugiados à Europa, e desestimulam-se novos fluxos de deslocamento populacional.

14 anos depois do ataque às Torres Gêmeas, os atentados de Paris atestam a falha da estratégia delineada na “Guerra ao Terror”, evidenciando que o próprio EI é um subproduto das táticas empreendidas pelos EUA na ocasião. A França contemporânea lidera os esforços europeus de restrição ao acesso de refugiados a suas fronteiras, desconsiderando o efeito positivo dessa medida na manutenção do poder do EI. Nesse sentido, o cerne da obra de Edward H. Carr é facilmente aplicável no cenário hodierno. Percebe-se claramente o colapso irrevogável das condições que tornaram possível a ordem do século XX, mas as respostas aos problemas atuais permanecem reproduzindo lógicas fracassadas, tornando urgentes drásticas mudanças de perspectiva na forma como se lida com os temas que mais geram instabilidade política no cenário presente.

Carr delimitou seu cenário como os “20 anos de Crise”, responsáveis pela ascensão dos totalitarismos e o consequente desencadeamento da Segunda Guerra Mundial. As condições sob as quais o autor identificou esse período de crise entre os séculos XIX e XX já estão dadas na contemporaneidade. Resta saber quanto tempo será contabilizado em nossos novos anos de crise.

Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e Professor do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Senac.