O recente anúncio de que as obras dos Jogos Olímpicos do Rio estão “a todo vapor” e de que o evento “será o maior legado da história dos Jogos Olímpicos”, feito por Eduardo Paes, Prefeito do Rio de Janeiro, coloca em questão o legado dos megaeventos esportivos em economias emergentes, especialmente após 2008, ano em que os países chamados BRICS deram início à corrida para sediar eventos deste tipo.Megaeventos como a Copa do Mundo da FIFA e os Jogos Olímpicos de Inverno e Verão carregam consigo algumas características que são comuns a todos eles e, principalmente, a todos os países-sede: (1) são eventos de grande escala, (2) têm forte apelo popular, (3) grande relevância internacional (4) atraem a atenção da mídia global e (5) são vistos como uma oportunidade de alavancar a economia local.Não é por acaso que têm sido cada vez mais disputados por cidades e países ao redor do mundo. Até 2018, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (os BRICS) terão sediado algum megaevento: Jogos Olímpicos de Beijing (2008) e Rio de Janeiro (2016), Jogos da Commonwealth, Índia (2010), Copa do Mundo da FIFA, África do Sul (2010), Brasil (2014) e Rússia (2018).

Frequentemente, ao postular sediar um destes eventos, os Estados são atraídos pela promessa de legados sociais, esportivos, econômicos e ambientais. Vislumbra-se sempre a oportunidade de alavancar a economia local pari passu a inserção do país/cidade-sede na rota do turismo mundial.

No caso dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro não é diferente. De um lado, o discurso oficial procura construir uma imagem de confiabilidade na execução das obras perante a audiência externa, conforme disse Eduardo Paes: “a Olimpíada é uma oportunidade de mostrar um Brasil diferente do país que atrasa licitações e superfatura preços. (…) É uma enorme oportunidade de transformação”. E, de outro lado, procura-se vincular o megaevento aos ganhos econômicos para a região, especialmente nos quesitos mobilidade urbana e emprego. A ideia é que o evento seja o motor de arranque para investimentos que a população reivindica há muito tempo.

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Por trás dos discursos otimistas, cujos legados social, cultural, ambiental, político, econômico ou esportivo são os grande atrativos, o que se nota é quase sempre previsões superestimadas, tanto do ponto de vista dos ganhos econômicos quanto da projeção internacional do país/cidade-sede.

Barcelona (Olimpíadas, 2002), por exemplo, é sempre citada como prova cabal de que um legado existiu. No entanto, diversos estudos apontam para a geração de empregos de baixa qualidade, baixo salário e pouca duração, bem como o aumento na especulação imobiliária. A tendência dos tomadores de decisão de superestimar o potencial econômico dos megaeventos esportivos tem sido cada vez mais questionada por estudos acadêmicos. Londres (Olimpíadas, 2012), por sua vez, também reduziu a expectativa em relação ao número de visitantes estrangeiros.

A fantasia de subestimar custos e impactos ambientais, superestimar receitas e sobrevalorizar efeitos em termos de desenvolvimento econômico não é exclusividade dos países em desenvolvimento (ou, no caso, dos BRICS). De Barcelona a Londres é possível notar a mesma retórica discursiva sobre os legados dos megaeventos. Por isso, é preciso um olhar atento sobre tais competições. É preciso, portanto, considerar como pesquisa futura o impacto social dos megaeventos.

Além disso, depois do caso de corrupção que envolve altos funcionários da FIFA, faz-se necessário uma ampla consulta pública antes de aprovar projetos de megaeventos, bem como tornar mais democrática a decisão de sediar uma Olimpíada ou uma Copa do Mundo.

 

Autor(a)

  • Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas e doutorando na USP. Tem interesse nas seguintes áreas: BRICS, Megaeventos esportivos e Política Internacional.