Ao nos depararmos com os fatos assustadores de Barcelona, assim como, meses atrás, os de Nice, os de Paris, e outros tantos, em escala mundial, preocupantes e vergonhosos, a primeira pergunta é fácil de ser formulada.

O que leva uma pessoa, um grupo político, religioso, ou mesmo um bando de fanáticos, a jogar uma van sobre uma multidão desprevenida, que nada mais fazia que curtir a vida, passear, olhar o entorno, apreciar?

Seria preciso muito sangue-frio, muita falta de desamor pelo próximo, muita alienação e desumanidade. O assassino seguiu impávido ao volante após ter passado por cima de centenas de pessoas, dando-se ao luxo de avançar em ziguezague para atingir o maior número de pessoas no menor tempo e espaço possível. As apurações indicam que um jovem conduzia o veículo. Matou e feriu seus iguais.

Falar em maldade inata ou em desvio de personalidade é pouco. Até o mais malvado dos malvados tem freios morais. Sente vergonha dos atos que pratica e que atentam contra o que é razoável, humanamente razoável. O fanatismo também tem sua lógica. Suas razões são irracionais, mas seguem um padrão. O criminoso de Barcelona fica fora disso, ainda que esteja submetido ao mesmo diapasão diabólico.

Tampouco ajuda buscar explicações nas teorias realistas que sugerem ser o fundamentalismo irracional uma resposta às políticas de potência do mundo ocidental, ou a derivação de uma luta de classes em escala global e que saiu do controle.

Não dá para reduzir as coisas à selvageria do capitalismo, às desigualdades que atravessam o mundo, à força do dinheiro. É um exercício inócuo, perfunctório, acadêmico, que não dissolve nem dilui o horror de se ver, de se pensar, de se imaginar as Ramblas ensanguentadas.

Que causa pode justificar atos assim? A luta anti-imperialista? A ordem de um chefe, a decisão de uma célula todo-poderosa, um desejo incontido de vingança, a vontade de fomentar o caos e o medo? A convicção de que é preciso agredir sempre mais para que a opinião pública perceba as injustiças que cortam a humanidade de cima a baixo?

Leia mais:  Crise humanitária na Europa: entre contradição e hipocrisia

Leia também: A revolução que fez o século XX
É difícil entender. Impossível aceitar. Muito menos desculpar.

E justo em Barcelona, cidade cosmopolita, colorida, multiétnica, na qual há milhares de africanos e muçulmanos, que interagem dinamicamente com cristãos e “ocidentais” vários. Cidade histórica, marcada pela tolerância e pelo desejo de autonomia.

Maldades e atos insanos fazem parte da experiência humana. Ocupam a face demoníaca do homo sapiens. Ao longo dos séculos, as sociedades têm buscado criar condições para que a insanidade (mesmo a mais fria e racional) seja condenada e fique à margem, reclusa, só venha à luz do dia episodicamente. As guerras de extermínio, os conflitos armados entre potências que arrasam cidades e populações inteiras, os horrores dos totalitarismos e dos campos de extermínio, mostram bem que a insanidade pode ganhar foros sistêmicos, tornar-se vida cotidiana. Assim como os crimes hediondos, os serial killers, as formas extremas de violência doméstica ou de gênero, de racismo, homofobia ou supremacismo, os roubos e a negação de direitos elementares.

O mundo atual está sem eixo, saiu do controle, ultrapassou as barreiras do razoável. O terrorismo é somente uma de suas expressões, mas não é certamente a única.

Diante dele, não se sabe o que deve ser feito, o que pode ser feito, nem que fóruns estariam revestidos da autoridade, do reconhecimento e da legitimidade para propor uma suspensão das atrocidades em favor de uma convivência dignificante e de um esforço coletivo para tornar a vida global mais humana, justa e fraterna.

Em momentos assim, é fácil constatar como nos tornamos frágeis. O sangue nas Ramblas é o nosso sangue, o sangue de todos.

Marco Aurélio Nogueira

Professor titular e coordenador do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da UNESP.