Quando olhamos para o futebol em escala global, um nome que de imediato se destaca é o da FIFA, a Federação Internacional de Futebol. Ela é responsável pela organização dos principais torneios internacionais desse esporte, incluindo não só a Copa do Mundo, mas também a Copa das Confederações, o torneio mundial de futebol de areia, a competição de futebol nos Jogos Olímpicos, e uma série de outras disputas menores.

Algo que pouco se discute, no entanto, é por qual motivo a FIFA possui legitimidade para monopolizar a organização desses torneios e tomar decisões de alto impacto que rapidamente movimentam bilhões de dólares, como é o caso da escolha de sedes para a Copa do Mundo, algo que comprovadamente gera aquecimento nas obras de infraestrutura do país escolhido, além de carregar fortes aspectos turísticos e políticos.

Fundada em 1904, a FIFA possui sede na Suíça e se apresenta como um órgão neutro e desalinhado de governos que busca coordenar o futebol mundial. Atualmente, 211 associações nacionais a integram, e o modo como sua estrutura é montada como consequência do tamanho da indústria do futebol é digna de um olhar mais profundo, que faremos na sequência.

Se tomarmos o Brasil como exemplo, vemos uma série de clubes de futebol, que são organizações privadas sediadas em uma determinada cidade, agrupados em uma série de federações estaduais de futebol que coordenam torneios regionais. Essas federações estaduais respondem por sua vez à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que é a representante do país perante a FIFA. Esse modelo se replica por todo o mundo, gerando uma complexa teia de relações que misturam doses variadas de poder público e privado.

A legitimidade da FIFA enquanto parte da chamada Governança Global seria originada da confiança depositada por esses atores menores no seu processo e suas regras. Sem um organismo maior e único conectando esses clubes e federações, ficaria complicado manter em funcionamento competições em larga escala, assim como acompanhar a troca e venda de jogadores e resolver disputas mais significativas.

Não é difícil entender por qual razão existe grande interesse em manter essa indústria em bom funcionamento, já que o mercado europeu de futebol por si só move cerca de 24 bilhões de dólares ao ano, enquanto um torneio nacional de grande porte como o Campeonato Brasileiro move 1.4 bilhões de dólares ao ano.

A FIFA, por sua vez, rende cerca de 2 bilhões de dólares ao ano, sendo parte substanciosa desse dinheiro originada de seus patrocinadores principais: Adidas, Coca-Cola, Hyundai, Visa e Sony; grupo do qual já participou a Emirates e que para a Copa do Mundo da Rússia conta com a adição da Gazprom.

Leia mais:  A Rússia, os Estados Unidos e a OTAN

É relativamente comum que ocorra corrupção nas chamadas “federações desportivas”, como o Comitê Olímpico e a Federação Internacional de Voleibol. Mesmo assim, a FIFA ainda consegue se destacar por sua vasta ilegalidade e insuficiência moral.

Escândalos envolvendo a FIFA chegam a datar do período em que era presidida pelo brasileiro João Havelange, entre 1974 e 1998. Mais para o fim de sua vida, Havelange teve de pagar restituições por uma série de crimes envolvendo manipulação e propinas. Ou seja, o problema não vem de hoje, e inclui as mais diversas práticas, desde alinhar resultados de partidas para favorecer apostadores até aceitar propinas para conduzir suas atividades mais básicas de um dado modo.

A fórmula para o desastre parece clara: a mesma instituição que faz investigação das acusações de corrupção no futebol também é responsável por administrar os patrocínios e controlar aspectos financeiros do esporte. Soma-se a isso ainda uma estrutura opaca, com lideranças vindas dos mesmos grupos e atuando em conjunto, e uma total falta de prestação de contas para o público.

Não é surpreendente, então, que a escolha da Rússia e Qatar como sede das Copas do Mundo de 2018 e 2022 tenha ocorrido em meio a acusações de vendas de votos perpetuadas por membros do Comitê Executivo da instituição. Investigações comprovaram que um voto em favor do Qatar estava valendo 1.5 milhões de dólares, o que faz sua vitória em relação aos Estados Unidos possuir bem mais sentido do que se olhássemos apenas para as condições de sediar um bom evento de ambos países.

Na última década a FIFA finalmente começou a ser mais ativamente questionada por suas atitudes, e se vê pressionada a fazer mudanças que há muito são óbvias, como incluir a opção do juiz pedir um tira-teima ao vivo de um lance polêmico. Ainda assim, está muito longe desse esporte que conquista corações mundo afora possuir um padrão mínimo de legitimidade em sua governança, e muitos questionamentos ainda se fazem necessários.

Mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP), especialista nos temas da Governança da Internet e no impacto da tecnologia na formação de políticas públicas e privadas.  Fundador do curso Governance Primer, iniciativa gratuita de ensino de Governança da Internet na América Latina. Site: www.markwd.website