O quinto episódio da terceira temporada de Black Mirror, “Men against fire”, trata de uma situação de guerra civil, na qual há um grupo de inimigos, que ameaçam determinada sociedade. Esses inimigos, denominados “Baratas”, são vistos não só como inferiores, mas como um grupo cuja destruição encontra-se atrelada à própria sobrevivência da sociedade.

Um dos pontos-chave do episódio é a apresentação de uma situação de genocídio, em que se objetiva a destruição completa de um grupo social. A desumanização, parte do processo genocida, pode ser vista pela própria denominação que é dada aos que são considerados o “outro”. A nomenclatura, referente a um animal normalmente rechaçado, associado a sujeira e à repugnância, serve para definir essas pessoas. Matar uma barata é considerado um favor à sociedade.

Desse modo, a assimilação construída entre um grupo de indivíduos e esses animais possibilita uma desumanização, que permite ainda a heroicização dos assassinos. No início do episódio, é notório o valor que é dado para os que conseguem matar algum membro desse grupo. As “Baratas” são seres excluídos de qualquer direito e cuja matabilidade é justificada.

Resgata-se nesse ponto a categoria de homo sacer de Giorgio Agamben.

Homo sacer ou vida nua é um conceito que caracteriza indivíduos que se encontram fora do espectro da cidadania e cuja morte não configuraria homicídio, por se tratar de uma “vida indigna de ser vivida”. Toda sociedade estabelece quem serão considerados os homens sacros e essa determinação parte de um ato soberano do Estado, que define os seus cidadãos e os que serão tratados como “vida sem valor”.

De acordo com Agamben, essa categoria de “vida sem valor” pode ser aplicada a indivíduos com doenças consideradas incuráveis e cuja imagem representaria o “avesso da autêntica humanidade”. A condição de doente pode ser inserida no espectro político a partir do entendimento de uma vida que “cessa de ser politicamente relevante”.

No episódio, as “Baratas” tornam-se indignas de viver porque sua genética representaria uma ameaça à sobrevivência das futuras gerações, já que possuíam maior probabilidade de desenvolver doenças e comportamentos considerados perigosos, como, por exemplo, a tendência à prática de crimes sexuais.

O ponto fulcral desse episódio é que as atrocidades cometidas contra o grupo são legitimadas na sociedade, devido a uma construção social de políticos que decidiram que uma determinada classe de pessoas representaria um perigo a seu modo de vida. Um aspecto interessante é que para facilitar o processo de matabilidade desse grupo de indivíduos foi desenvolvido um chip que é implantado nos soldados e que é capaz de transformar a imagem desse grupo considerado inimigo. Seu corpo e rosto são deformados, transfigurados, de modo que sua desumanidade ficaria visível. A utilização de um instrumento que deturpa a imagem dos indivíduos permitia ao soldado enxergar seu inimigo como, de fato, diferente, sem possibilidade de identificação e tampouco de diálogo, já que qualquer palavra emitida pelas “Baratas” soava como ruído. O implante impedia ainda que se sentisse o cheiro do sangue, em uma tentativa de tornar superficial, distante e insensível o ato de matar.

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Quando um dos soldados tem seu implante inutilizado, ele consegue ver a realidade dessas pessoas e enxerga a humanidade que os assemelha. Um dos responsáveis por essa política de extermínio argumenta que o perigo está justamente no quão semelhantes eles parecem ser e que isso impediria ou dificultaria o combate. Esse argumento pode ser entendido a partir da compreensão de que nós, seres humanos, nos solidarizamos com aquilo com que nos identificamos.

Nesse ponto, é interessante a análise feita por Gabriela Ferraz sobre a morte do menino Aylan na Itália. A grande circulação dessa foto fez com que o posicionamento europeu no que concernia ao recebimento de refugiados fosse modificado. Aylan não foi a primeira a criança morta, tampouco a última. Então por que essa foto, especificamente, ganhou tanta notoriedade e influenciou na mudança de comportamento com relação a acolhida dos refugiados? É o que explica Ferraz quando evidencia as características de Aylan: as roupas ocidentais, a cor branca e o rosto escondido. Essa imagem gerou comoção e solidariedade devido à identificação que a sociedade Ocidental teve com a criança. Nesse caso, não se tratava de uma criança cujas características físicas remetessem a uma história de repressão e violência já normalizadas.

No seriado, o implante tecnológico, aliado à retórica e à propaganda, permitiram a perpetuação do medo e a legitimação de uma política securitária e desumanizadora. É possível identificar em discursos atuais a reprodução desse tipo de discurso. Líderes políticos como Silvio Berlusconi ao falar da chegada de imigrantes na Itália como “tsunami humano”, Donald Trump ao referir-se aos imigrantes latinos como “bad hombres” e aos refugiados sírios como “cavalo de troia”, são exemplos emblemáticos.

A desumanização do que é considerado “outro” em meio à prevalência de discursos de ódio e de políticas que perpetuam o sentimento de medo nas sociedades pode ter consequências catastróficas para nossa condição como seres humanos, dotados de um mínimo de racionalidade e empatia.

Internacionalista pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), mestre e Doutoranda pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Atuou como Agente de Proteção no Centro de Referência para Refugiados da Caritas Arquidiocesana de São Paulo. É atualmente Professora da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP-SP).