Os coronavírus (CoV) foram identificados na década de 1960 como vírus patogênicos para seres humanos que circulavam anteriormente apenas no mundo animal. A doença em humanos manifesta-se na forma de infecções respiratórias ou gastrointestinais, porém os sintomas podem variar do resfriado comum a infecções respiratórias inferiores mais graves, como a pneumonia. Os exemplos mais recentes foram a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) em 2003 e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), em 2012. E, agora, o novo coronavírus, SARS-CoV2.

O diretor da London School of Higyene and Tropical Medicine (LSHTM), Peter Piot, argumenta que o SARS-CoV2 é diferente dos coronavírus conhecidos que anteriormente propagaram a SARS ou MERS por alguns motivos. Primeiro, muitas pessoas infectadas não apresentam sintomas por dias. São, portanto, assintomáticas e podem inconscientemente infectar outras pessoas, dificultando os esforços de identificação e isolamento de infectados, uma das estratégias-chave recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS): “Identify, isolate and care for patients early, including providing optimized care for infected patients”. Segundo, a COVID-19 é uma doença leve em grande parte do tempo,  assemelhando-se a um resfriado e os sintomas são facilmente confundidos com a gripe. Os dois pontos são vitais para compreender a disseminação “inconsciente” do vírus. Assim, o terceiro ponto é a facilidade de transmissão do SARS-CoV2 que, nos estágios iniciais, está concentrado na garganta superior, portanto, quando tossimos ou espirramos, bilhões dessas partículas podem ser expelidas e transmitidas a outras pessoas.

A COVID-19 geralmente começa na garganta e, à medida que progride, desce para os pulmões e se torna uma infecção respiratória mais baixa. Dados atuais da LSHTM sugerem que uma em cada seis pessoas (em torno de 16,5%) apresenta sintomas graves, incluindo necessidade de hospitalização, internação em unidade de terapia intensiva, podendo chegar a óbito.

No dia 30 de Janeiro de 2020 a OMS declarou o surto de COVID-19 uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) e no dia 31 de Janeiro, no Brasil, foi reestabelecido o Grupo Executivo Interministerial de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional e Internacional (GEI-ESPII), criado em 2005. O papel do Grupo é “propor, acompanhar e articular medidas de preparação e de enfrentamento às emergências em saúde pública de importância nacional e internacional; propor e acompanhar a alocação de recursos orçamentário-financeiros para execução das medidas necessárias em casos de emergências em saúde pública; estabelecer as diretrizes para a definição de critérios locais de acompanhamento da implementação das medidas de emergência em saúde pública de importância nacional e internacional; e elaborar relatórios de situações de emergência em saúde pública de importância nacional e internacional e encaminhar aos Ministros de Estado dos órgãos representados”.

A chegada do vírus no Brasil levantou diversos questionamentos se o país estaria preparado para lidar com uma pandemia que deixou o mundo em estado de pânico. Apesar de subfinanciado e dos problemas de gestão, em um contexto mais amplo de crise econômica e política e de medidas de austeridade, o Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos sistemas de saúde mais bem sucedidos de todo o mundo. O Brasil foi apontado pelo Global Health Security Index (GHSI) como o nono país melhor preparado para responder rapidamente e minimizar a propagação de uma epidemia. O país ainda é considerado o 12º em questões de detecção de doenças e o 16º em prevenção.

O primeiro caso confirmado de COVID-19 no Brasil foi em 26 de fevereiro, mas o Ministério da Saúde vinha agindo desde a declaração de ESPII pela OMS. Em 07 de fevereiro, por exemplo, o Ministério da Saúde e a Fiocruz realizaram capacitação ténica de representantes de nove países das Américas do Sul e Central para diagnóstico laboratorial. Ademais, Boletins Epidemiológico – uma publicação de caráter técnico-científico editada pela Secretaria de Vigilância em Saúde com acesso livre e formato eletrônico – passaram a ser publicados frequentemente. O último Boletim foi publicado no dia 14 de março e tendo em vista “o elevado número básico de reprodução (R0) e o curto tempo de duplicação quando comparado a Influenza, a epidemia tende a apresentar uma concentração expressiva de casos em um curto espaço de tempo. Em países como Itália, China e Espanha, em poucas semanas o crescimento do número de casos foi suficiente para colapsar os sistemas de saúde local. Atualmente observamos um declínio no número de casos em todas as províncias na China. Esse declínio é decorrente das medidas de intervenção estabelecidas, que, estima-se, tenham evitado cerca de 94,5% dos casos que poderiam ter ocorrido”.

Na mesma direção, o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta estimou que, no Brasil, enquanto 80% a 85% dos casos vão requerer cuidados básicos, cerca de 15% haverá necessidade de internação, o que acarretará em uma sobrecarga no sistema de saúde. Quatro dias depois de Mandetta afirmar que o sistema de saúde brasileiro pode entrar em colapso em abril, diante de 413 mil casos confirmados no mundo – com mais de 18 mil mortes – e 2.297 casos em todos os estados do Brasil, o presidente Bolsonaro fez um pronunciamento nacional no dia 24 de março atacando a imprensa, os governadores e afirmando que havia uma histeria em torno da pandemia, que foi definida por ele como uma “gripezinha”.

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No último Boletim Epidemiológico disponível, apontam-se as intervenções adotadas na China – e posteriormente em diversos países como Itália, França, Alemanha, Reino Unido, dentre outros – como suspensão dos transportes públicos, restrição do tráfego nas áreas urbanas, fechamento de espaços públicos, cancelamento de eventos, quarentena domiciliar para toda população, exceto para profissionais de serviços essenciais. Afirma-se, ainda, que “as medidas não farmacológicas visam reduzir a transmissibilidade do vírus na comunidade e portanto retardar a progressão da epidemia. Ações como essa, além de reduzirem o número de casos, tem o potencial de reduzir o impacto para os serviços de saúde, por reduzir o pico epidêmico. (…) Além disso, as medidas não farmacológicas atrasam o pico da epidemia e reduzem a altura do pico, permitindo, dessa forma, uma melhor distribuição dos casos ao longo do tempo e o esgotamento dos serviços de saúde”.

O presidente do Brasil solicitou, em seu pronunciamento, que o país voltasse à normalidade. Ao defender a reabertura de escolas e o fim do confinamento, Bolsonaro contraria as recomendações até então determinadas pelo Ministério da Saúde, que estavam em consonância com recomedações da OMS e que vem sendo adotadas em diversos países. A proposta de Bolsonaro de isolar apenas os grupos de risco (idosos e pessoas com condições médicas pré-existentes, tais como pressão alta, doenças cardíacas, doenças pulmonares, câncer, diabetes, dentre outras), foi inicialmente aplicada pelo Reino Unido. A estratégia, no entanto, foi abandonada após o Imperial College COVID-19 Response Team publicar o relatório Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand afirmando que na ausência de medidas de controle ou mudanças espontâneas no comportamento individual, espera-se que o pico da mortalidade ocorra em três meses. Assim, considerando o número básico de reprodução (R0) de 2.4, o estudo estimou que 81% da população da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos se contaminariam e que haveriam 510,000 mortes na GB e 2.2 milhões nos Estados Unidos, sem contabilizar os potenciais efeitos dos sistemas de saúde altamente sobrecarregados.

Bolsonaro, na contramão da ciência e dos pesquisadores, segue argumentando exclusivamente sobre a letalidade da doença, quando a estratégia é reduzir a transmissão para que os serviços de saúde possam lidar com a epidemia, sem exceder a capacidade de cuidados intensivos disponíveis. O discurso do presidente da República, portanto, ignora as limitações do SUS, já alertadas pelo seu Ministro da Saúde.

Bolsonaro ainda afirmou que “o FDA Americano e o Hospital Albert Eisten, em São Paulo, buscam a comprovação da eficácia da Cloroquina no tratamento do COVID-19”. A constante exaltação do presidente sobre a eficácia não comprovada do medicamento já teve efeitos no Brasil, as vendas dispararam descontroladamente e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) teve que enquadrar a Cloroquina como remédio de controle especial, para evitar que pessoas com lúpus e artrite reumatoide – que necessitam do remédio – ficassem sem medicação. A Anvisa ainda ressalta “- apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovam o uso desses medicamentos para o tratamento da Covid-19. Portanto, não há recomendação da Anvisa, no momento, para a sua utilização em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação pelo novo coronavírus; e a automedicação pode representar um grave risco à sua saúde”.

A OMS também alertou sobre o assunto. Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, Diretor Geral da Organização, afirmou que “pequenos estudos observacionais e não-randomizados não nos darão a resposta que precisamos. O uso de medicamentos não testados sem a evidência certa pode gerar falsas esperanças e até causar mais mal do que bem e causar uma escassez de medicamentos essenciais necessários para tratar outras doenças”.

Desde o início do surto do novo Coronavírus, a Organização Mundial da Saúde incentiva o chamado “risk communication” ou comunicação de risco, que se refere à troca de informações em tempo real, conselhos e opiniões entre especialistas com o objetivo de permitir que as pessoas em risco tomem decisões informadas para proteger a si mesmas e a seus familiares. Enquanto isso, o presidente do Brasil afirma que Deus capacitará cientistas, os mesmos que ele constantemente ignora e contradiz.

Autor(a)

  • É pesquisadora, jornalista pela PUC-RS, mestre em Política Internacional e Comparada pela Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e doutoranda de Relações Internacionais com foco em Saúde Global em regime de cotutela entre a Universidade de São Paulo (USP) e o King’s College London, com bolsa FAPESP.