Em 1970 o primeiro presidente socialista chegava ao governo por meio do voto popular no Chile: Salvador Allende, eleito por uma coligação de esquerda. A Unidade Popular (UP), composta por intelectuais, trabalhadores, camponeses e artistas, pretendia abrir um novo horizonte para o povo chileno. No ano seguinte, em outubro de 1971, o poeta Pablo Neruda, vencedor do Nobel de literatura, foi convidado por Salvador Allende para ler para mais de 70 mil pessoas no Estádio Nacional de Chile. A via chilena para o socialismo trazia esperança para a classe trabalhadora e os chilenos(as) passavam a compartilhar o fruto do seu trabalho. Homens e mulheres se sentiam protagonistas de um processo histórico único.

Ao longo de seu governo, Allende nacionalizou as minas de cobre e promoveu a reforma agrária. Diversas terras improdutivas foram entregues aos camponeses. Além disso, as minas de carvão e os serviços de telefonia passaram para o controle do Estado. Os bancos também foram afetados por medidas intervencionistas. O Chile se tornava mais justo e menos desigual. Pessoas cantavam pelas ruas. O país vivia sua utopia.

No campo partidário, o Partido Socialista Chileno, o Partido Comunista, o Partido Radical, o Partido Social Democrata e o Movimento de Ação Popular Unitária (MAPU) sustentavam Allende no governo mesmo diante de inúmeras divergências ideológicas por parte de tais organizações. Por outro lado, no que tange os movimentos sociais, o Movimento Esquerda Revolucionária (MIR), os Comandos Comunais, as Áreas de Propriedade Social (APS) e os Cordões Industriais tentavam engendrar a tese do Poder Popular. Juntas de abastecimentos (JAPs) foram criadas para evitar o desabastecimento de alimentos promovido pelo boicote de frações de classes burguesas.

Em 1971, em visita ao Chile, o comandante da revolução cubana, Fidel Castro, rompendo o isolamento cubano com o continente que já durava desde 1962, apoia o governo Allende. Contudo, Fidel traz à tona a questão militar. Preocupado com forças reacionárias que poderiam impedir os caminhos da revolução chilena, Fidel alerta Allende sobre a articulação dos militares e um possível golpe. Ao mesmo tempo, a fragmentação por parte da esquerda também é objeto de preocupação do líder cubano.

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Os Estados Unidos, por sua vez, em meio a um contexto de Guerra Fria, não admitiriam a instauração de um segundo regime com perspectiva socialista sob sua área de atuação. As nacionalizações e estatizações adotadas pelo governo Allende era vista como uma afronta aos interesses políticos estadunidenses. Para conter o avanço de ideias socialistas, o imperialismo, mais uma vez, promoveu um bloqueio econômico “(in)formal”, de forma a impedir empréstimos internacionais ou a negociação de bons preços para o cobre, principal produto da economia chilena. O embaixador estadunidense em Santiago, Edward Korry, proferiu: “não permitiremos que nenhuma porca e nenhum parafuso cheguem ao Chile de Allende”.

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A preocupação de Fidel se concretizou: os bloqueios econômicos e as sucessivas greves nos setores do transporte sufocaram a economia chilena abrindo espaço para um golpe das Forças Armadas. A inflação, por exemplo, passou para patamares superiores aos 300% no ano do golpe. De acordo com o Banco Central Chileno, isso fez com que o crescimento do PIB chileno passasse de 8% positivo em 1971 para 4,2% negativos em 1973. Os ganhos salarias, por sua vez, obtidos com a política de nacionalização, são corroídos pelas altíssimas taxas de inflação. A estratégia de estabelecer um embargo à economia chilena, somada às campanhas de boicote dos produtos por parte dos empresários, coloca o país diante da derrocada econômica. A esquerda se fragmentou. Neste cenário, com apoio militar e financeiro do governo dos Estados Unidos e da CIA, o ditador Pinochet triunfou. Grupos nacionalistas-neofascistas como a “Patria y Liberdad” e o Partido Nacional dão respaldo para o golpe.

Em 11 de setembro de 1973, com o fim da experiência chilena ao socialismo, a morte de Salvador Allende e o bombardeio ao Palácio de la Moneda, teve início a ditadura chilena, que configurou um dos mais violentos ataques à democracia, à justiça e à liberdade na América do Sul.

Gustavo Menon

Doutorando no PROLAM-USP. Mestre em ciências sociais pela PUC-SP e pesquisador do Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais–NEILS