Nestes dias que se seguem aos massacres de Paris, fala-se e pensa-se em tudo. Há um enorme repúdio mundial, que surge dos mais distintos cantos e posições políticas. A comoção e a perplexidade são gerais. Não se consegue aceitar, nem compreender, que motivações podem levar militantes políticos a ocupar partes de uma cidade para fuzilar impiedosamente pessoas desprevenidas, que tentavam se divertir sem nem sequer suspeitar que pudessem ser atacadas. Bares, restaurantes, casas de shows, estádios de futebol: os alvos da matança deixaram claro que, naquela operação, o que menos contava era a vida humana. Os mortos não foram efeito colateral de uma ação militar.

Mas há também relativismo e explicações compensatórias. Observações superficiais, do tipo “vivemos num mundo em guerra e os soldados islâmicos não fizeram em Paris nada diferente do que fazem as tropas do Ocidente na Síria”. Ou então “o horror que os franceses estão sentindo hoje não é diferente do horror que vêm sentindo os árabes desde sempre”.

Precisamos sair deste pântano.

É prudente começar lembrando que os militantes do Estado Islâmico podem ter agido em nome de um Deus, mas a razão que os moveu não foi religiosa. Não deveriam ser vistos sumariamente como “muçulmanos”, fiéis de uma religião generosa, aberta para o mundo. Podem fazer suas rezas e ter suas crenças, mas praticam a religião de modo instrumental, superficial, não na dimensão profunda. Usam-na como recurso de legitimação e identificação, fonte de racionalizações para atos desumanos e cruéis.

Também não se deve esquecer que a violência sustentada por justificativas religiosas integra a história mesma da Humanidade. Cristãos, judeus, muçulmanos podem se dar as mãos neste ponto. A Inquisição não é exemplo isolado. Não dá para concluir que cada religião está em guerra com as outras, como poderia sugerir uma leitura do Choque de Civilizações, de Samuel Huntington. É pior: em nome delas muitas vezes um cristão mata outro cristão, um islamista, outro islamista. Guerras religiosas são menos numerosas e menos graves do que matanças intra-religiosas. Na cegueira do fanatismo, não se escolhe quem deve morrer primeiro.

Não se pode compreender o que se passou em Paris mediante uma visão que responsabiliza unilateralmente o “mundo islâmico”, como se ele fosse um bloco ou um aríete voltado contra o Ocidente cristão, liberal e democrático. É preciso ver o conjunto das interações históricas que foram construindo o Islã e o mundo ocidental, a contraposição entre eles, os laços de cumplicidade entre eles. É bom recordar que o Oriente é uma “invenção do Ocidente”, para falar nos termos de Edward Said. Se há hoje um estado de guerra na Europa e nos países árabes (mas não somente aí), a “culpa” por isso precisa ser bem distribuída. Para o bem da inteligência crítica.

O Estado Islâmico, o ISIS, liga-se de muitas maneiras ao Ocidente. Nasceu e cresceu em meio às políticas praticadas pelas grandes potências, pelo mercado, pelos grandes interesses econômicos, que levaram a guerra e a miséria para o mundo árabe, potencializando o que havia de pior nele, os sultanatos autoritários, os aiatolás fanáticos, os conflitos tribais e interétnicos recorrentes. Beneficiou-se da violência repressiva e autoritária do ditador sírio Bashar al Assad, foi financiado por algumas monarquias do Golfo (como a Arábia Saudita) com a vista grossa dos EUA e da Europa.  Quando cresceu e ficou forte, saiu do controle e passou a ser então perseguido e bombardeado.

O EI é produto da inexistência de uma ordem democrática no mundo, um “centro” com capacidade de coordenação. Foi impulsionado pelas orientações toscas e selvagens de Bush, pelas visões geopolíticas e sedentas de controle sobre o petróleo e algumas regiões estratégicas. Foi instigado pela volúpia “universalista” da luta por direitos humanos e pela dificuldade dos povos árabes de dialogar com uma lógica ética e jurídica distinta da sua. E tem recebido oxigênio extraordinário das estratégias que vêm prevalecendo nas potências ocidentais, na Rússia, na França, na zona do euro, que provocam devastações inaceitáveis em muitos países árabes, além de fomentarem a criminalização do estrangeiro nas sociedades europeias.

Obama não é Bush, mas não conseguiu mudar o núcleo operante da política contra o terror desenhada antes dele. Seu poder não chegou a tanto, a ponto de dobrar o complexo industrial-militar do país e o fanatismo que impregna sua cultura política. Os norte-americanos continuaram a agir para levar à falência alguns Estados árabes tidos como “ameaças”. Detonaram a normalidade e, depois, assistiram ao aprofundamento de guerras civis dilaceradoras. De certo modo, os EUA e seus aliados contaram com a colaboração de milícias locais para executar esses planos. O Estado Islâmico surgiu assim e deve ter sido em parte tolerado, ao menos no início. Depois, fugiu do controle. Assumiu-se como califado fundamentalista e passou a ser um fator de perturbação no coração do Oriente Médio, por sobre poços de petróleo e zonas militares estratégicas. Com a Al-Qaeda foi a mesma coisa.

Antes, a guerra fria manteve certo equilíbrio de forças e paradoxalmente algum controle e estabilidade. Caído o Muro, tudo foi para os ares e a própria Rússia se tornou parceira da operação. Todos agora estão a ver o circo pegar fogo. Os controles falham a olhos vistos, mas continuam a ser reproduzidos como se fossem eficientes. Os norte-americanos não conseguiram deter o que causou o 11/9, assim como a França com os massacres de 13/11. Excesso de vigilância e policiamento ostensivo não são garantia de nada. A estratégia ocidental contra o EI falhou: em vez de conter a facção terrorista, alimentou-a e excitou-a.

Nada disso tem a ver com islamismo ou religiosidade. Nada disso pode servir para que se relativize a monstruosidade do terrorismo ou se trate o EI como se fosse um “fenômeno cultural” merecedor de respeito ou tolerância.

O EI é terrorista, precisa ser interpretado e condenado assim. Como grupo terrorista, pouco se interessa pelo número de mortos ou pela quantidade de sangue que derrama com suas ações. Sua preocupação é com o espetáculo que consegue produzir, com o medo que causa, com a sede de vingança que julga despertar naqueles que aplaudem suas ações ou que vivem marginalizados, submetidos a preconceitos e exclusões. Se conseguir alimentar, com isso, a fúria da ultradireita xenófoba, melhor ainda.

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Não pode merecer complacência. Seus militantes não são idênticos aos miseráveis e aos desesperados do mundo árabe que eles, os terroristas, ao contrário, exploram e oprimem. Não são vítimas da “arrogância ocidental”. São cavaleiros que pretendem trazer o Apocalipse e disseminar uma barbárie que já lateja no mundo, reforçando-a com a imposição de preceitos primitivos, hostis à humanidade de homens e mulheres. São produtores de vítimas, dentro e fora dos países árabes. No curtíssimo prazo, sobrará para os refugiados sírios que buscam abrigo na União Europeia.

No comunicado em que reivindicou a autoria dos massacres, o Estado Islâmico não poupou palavras. Chamando Hollande de “imbecil”, assumiu que caçará os “seguidores da Cruz” sempre que ofenderem Maomé, como em Paris, “capital da abominação e da perversão, aquela que carrega a bandeira da cruz na Europa”. É uma verdadeira declaração de guerra:

“Que a França e todos que seguem o seu caminho saibam que continuarão sendo os principais alvos do Estado Islâmico e que continuarão a sentir o cheiro da morte enquanto seguirem o caminho das cruzadas, enquanto se atreverem a insultar nosso Profeta, e enquanto se vangloriarem de sua guerra contra o Islã na França e de suas ofensivas aéreas contra os muçulmanos na terra do Califado. Este é apenas o começo. E é também um aviso para aqueles que queiram meditar e tirar lições”.

Não é difícil imaginar como será amanhã, com a França em estado de emergência, o exército e a polícia nas ruas, as fronteiras fechadas. A análise do efeito que os massacres de Paris terão sobre a política internacional terá de ocupar a atenção a partir de agora.

Se não dá para saber muito agora, ao menos dá para afirmar que não há luzes no final do túnel, ao menos no curto prazo. A escuridão aumentará se o que preponderar vier a ser uma nova versão da “guerra ao terror”, embalada por bravatas patrióticas, nacionalistas. Deste ponto de vista, o discurso de François Hollande após os massacres não deixa muitas esperanças. Ele sugere que os franceses agirão para “reparar” o mal que foi feito à França. Reitera a ideia de que há uma “ameaça externa” a ser combatida, mesmo que, para isso, se tenha de rasgar o acordo de Schengen e limitar a livre mobilidade na União Europeia.

Como está dito em um artigo do Le Monde, a França se converteu “no país que os jihadistas amam odiar, mais até do que os Estados Unidos”. Além de participar diretamente dos bombardeios sobre a Síria e de ser o principal país europeu da aliança liderada pelos EUA contra o EI, a França tem um histórico complicado com o mundo árabe. Escrevem os jornalistas:

“A isso se acrescenta um conjunto de valores, em primeiro lugar o da laicidade, que batem de frente com o credo dos extremistas. Para muitos dentre eles, a proibição de uso do véu islâmico no espaço público alimenta um ressentimento fundamental, que condicionou sua relação com a França. A presença, no seio da população francesa, de uma importante comunidade muçulmana funciona como um ímã decisivo para os jihadistas. O sentimento de rebaixamento social experimentado por uma parte de seus membros lhes oferece uma ótima porta de entrada, um terreno potencialmente fértil. Como no Iraque e no Líbano, onde visa principalmente os xiitas para jogá-los contra o sunitas, o Estado Islâmico explora, com prazer perverso, as fraturas sociais e identitárias francesas”.

A abertura de uma nova “guerra ao terror” não ajudará a que o cenário se desanuvie. Ao contrário. Fazer ou defender isso será como jogar gasolina na fogueira que já arde. Será agir como fazem muitos governos, que juram combater o EI mas não deixam de vender armas para o Oriente Médio e de dar sustentação a governos retrógrados na região. O incremento de relações comerciais nem sempre é um caminho virtuoso. Assim como o jogo de estratégia entre as potências.

Se algo deve ser feito para frear o EI, isso não passa pelo aumento da beligerância, mas pelo compartilhamento das soberanias nacionais, que hoje estão em franco e assumido declínio. Em suma, pelo entendimento e pela negociação.

Enfrentar o terrorismo do EI terá de ser uma operação complexa, distribuída no tempo e com capacidade inédita de articulação. A solução pode não ser econômica, mas a operação precisará encontrar meios de cortar as fontes de financiamento do EI. Pode não ser militar, mas terá de buscar a inviabilização e a destruição das bases militares do EI. O problema é político e requer uma solução política de grande envergadura, que precisará combinar força e consenso, coerção e disputa de hegemonia. Gramsci, mais que Maquiavel , ou Gramsci mais Maquiavel. Menos Clausewitz.

O EI atua nas redes, vale-se intensivamente das TICs, é performático, seduz jovens sedentos de violência e autoafirmação, a quem oferece recompensas religiosas e um machismo patriarcal regressista, primitivo e por isso mesmo de fácil penetração nos interstícios “pós-modernos” das periferias do capitalismo globalizado, mundo árabe incluído. Mistura versões fundamentalistas, salafistas e wahabitas do islamismo com videogames e consumo conspícuo, finanças globais sofisticadas e ataques armados espetaculares, espaços virtuais e espaços territoriais – uma mixórdia que precisa ser bem conhecida e investigada, para não ser simploriamente lida como se fosse o efeito não desejado dos apetites imperialistas do Ocidente.

Sem a prevalência de uma visão política de grande envergadura, muitos sonhos, vidas e utopias continuarão a se desfazer. E o mundo, a piorar.

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