Há quem descreva a eleição presidencial dos Estados Unidos de 2016 como uma das mais incomuns da História moderna. As atuais campanhas revelam a crise do establishment, dos políticos e da política, assim como denunciam o baixo nível de confiança nas instituições. Nelas, ganharam protagonismo figuras que antes seriam marginalizadas pelo processo, assim como ficou evidente a impopularidade dos candidatos perante a sociedade e mesmo dentro dos próprios partidos.

Desde que foram indicados, Hillary Clinton e Donald Trump investem na criação de duas narrativas antagônicas. Sob o lema “Stronger together” (juntos somos mais fortes), Hillary tenta barganhar o voto da parcela mais progressista do eleitorado e das minorias, além dos jovens, que de forma geral apresentam forte resistência à sua candidatura. Trump propaga a ideia de “Make America great again” (faça os EUA grandes novamente) e, com isso, dirige-se, sobretudo, ao público conservador amedrontado pelos efeitos da globalização; um público carente da ideia de “EUA em primeiro lugar”.

Hillary já referiu-se ao eleitorado de Trump como um “bando de deploráveis”, alegando que este grupo é racista, sexista, homofóbico e islamofóbico. Trump atravessa a campanha com denúncias de corrupção contra a adversária e caracterizando-a como “mulher asquerosa” e “trapaceira”, enquanto enfrenta dificuldades para criar confiança com o eleitorado feminino, os negros e os imigrantes. A campanha é agressiva dos dois lados, e a polarização aparece nas ruas, na imprensa e nas mídias sociais. Em tempos de cólera, os candidatos e o eleitorado reforçam uma narrativa de permanente contraposição entre o “eu” e o “outro” e forjam a existência de dois EUAs em conflito.

Ainda que essa visão revele diferentes formas de interpretar o mundo, ela promove uma simplificação perigosa. O que são os EUA, afinal, senão um mosaico de diversidade? São um universo de múltiplas tendências com o qual o sistema político não está sendo capaz de lidar. Assim, enquanto nos distraímos com a cortina de fumaça causada pelos insultos mútuos e pela espetacularização das campanhas, perdemos de vista o problema mais grave que as eleições trazem à tona: a panela de pressão social e a inadequação do modelo de representação do país diante dessa realidade.

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A demografia dos Estados Unidos está mudando de forma significativa. Segundo pesquisa do Pew Research Center, a sociedade é muito mais diversa do que no passado. Em 16 anos (2000 a 2016) cresceu de 7% para 12% o número de hispânicos aptos a votar. Além disso, em função da imigração latina e asiática, acredita-se que em 2055 o país não possuirá uma única maioria étnica ou racial.

Pesam também as mudanças geracionais. Os chamados millennials tendem a defender posições mais progressistas em temas políticos e sociais e, em sua maioria, se autodeclaram independentes. Ademais, o papel das mulheres no mercado de trabalho e em posições de liderança tem crescido, assim como a configuração da família está mudando. Os dados também mostram que o percentual de americanos que pertence à classe média está encolhendo, o que significa o aumento do nível de desigualdade. Por fim, diminui também o número de cristãos e aumenta o percentual de pessoas que dizem não se identificar com religião alguma.

Os partidos políticos, por outro lado, parecem cristalizados, presos a imagens de outrora — ou pior, ao que suas lentes desejam enxergar. Enquanto tentam emplacar vilões e mocinhos campanha afora, perdem a oportunidade de se conectar com a nova realidade. Travam uma batalha pouco estratégica e de curto prazo e, com isso, cansam o eleitorado que, desmotivado, vê o governo e os partidos como entidades que não representam os seus interesses.

Este ano, os democratas provavelmente perderão o voto do público idoso, branco e menos educado — cativo do partido em outras ocasiões. Os republicanos, na contramão do que já defenderam, aceitaram encampar uma campanha protecionista e anti-imigração para tentar eleger o seu candidato. Nos dois casos, angariar votos a todo custo significou comprometer a própria identidade e esquecer compromissos assumidos anteriormente.

As eleições de 2016 mostram a urgência de que os partidos rediscutam as suas bases e reavaliem o perfil do eleitorado. Se há um conflito entre dois EUAs que mereça atenção, ele envolve o país do passado versus o do futuro.

Texto originalmente publicado no jornal O Globo, em 30/10/2016.