Crédito da ilustração: Valor Econômico

Em viagem de três dias pela Europa Ocidental no início de maio, Narendra Modi foi recebido com deferência na França, Alemanha e Dinamarca por líderes políticos em busca de um contraponto relevante fora da Otan diante da Rússia e da China. Sem se comprometer, o primeiro-ministro deixou claro que a Índia segue caminho próprio no complexo cenário criado pela guerra na Ucrânia.

Biden busca ampliar relações com países do Indo-Pacífico. Em 13/5, recebeu em Washington líderes do bloco Asean; de 20/5 a 24/5, visitará Coreia do Sul e Japão e estará na reunião presencial do Quad. Biden quer superar dificuldades de coordenação com potências asiáticas e reafirmar o foco na China. A Casa Branca promete créditos a países da Asean para energia renovável, infraestrutura, questões humanitárias e saúde pública, no montante de US$ 150 milhões para projetos capazes de atrair “bilhões” de investimentos privados, além do programa de harmonização de legislações comerciais e ambientais e de regras nacionais sobre economia digital. Divulgado em fevereiro, o programa busca pressionar Pequim com a adesão de seus vizinhos a regras patrocinadas pelos EUA.

Biden quer compromissos substantivos na Ucrânia, mas a abstenção sistemática de Índia, Indonésia e Paquistão em votações condenando a Rússia tem motivações fortes. Os EUA enfrentam desconfianças e resistências pelo passado de guerras na região e de apoio aos europeus na luta contra o colonialismo. A Indonésia se ressente do apoio de Washington ao referendo de independência do Timor Leste e aos programas de auxílio monetário implantados pelo FMI em 1998, considerado por diversos políticos como punitivo a setores econômicos. A Índia reclama não ter tido em 2020, nos incidentes com a China, o apoio agora cobrado contra a Rússia.

No Paquistão, cresceu o descontentamento nas elites com a derrubada do primeiro-ministro Imran Khan, em 10/4/22. No seu governo, Islamabad se aproximara da China em busca de investimento. Kahn tornou-se crítico feroz da política dos EUA para o Afeganistão e aponta conluio da CIA com a oposição. O discurso ecoa nos protestos da população contra programas do FMI de 2021 para conter a inflação. Khan elogiou a posição da Índia de não aceitar as sanções contra a Rússia e disse que faria o mesmo.

Pequim tem procurado melhorar sua imagem na região com promessas de auxílio econômico, créditos e megaprojetos, além de assertividade diplomática. Ao ser eleito presidente das Filipinas, Ferdinando Marcos Jr. recebeu felicitações imediatas e o anúncio de iniciativas para melhorar as relações bilaterais, marcadas por disputas sobre ilhas e direitos de navegação. Houve também o acordo de cooperação em segurança com as Ilhas Salomão.

Junto com Nova Délhi, Washington alerta que o auxílio financeiro de Pequim é de fato a criação de uma rede de países endividados. A queda do primeiro-ministro Mahinda Rajapaksa no Sri Lanka, em 09/05, foi precipitada pela inflação e pela crise econômica e a elevada dívida externa é atribuída na imprensa ocidental e indiana a créditos chineses. O governo do Sri Lanka ameaça suspender pagamentos, recebeu auxílio da Índia, pede aumento dos prazos e considera recorrer ao FMI. O país também negocia um pacote com Pequim, que estaria reticente em socorrer um parceiro que daria preferência a credores privados, na maioria americanos.

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Washington ampliou relações comerciais com diversas nações no Indo-Pacífico e oferece apoio militar contra o expansionismo chinês, mas enfrenta o histórico de falta de compromissos robustos em defender parceiros na região, inclusive com a dissolução da Organização do Tratado do Sudeste Asiático (Seato), em 1977.

A Casa Branca nega que pretenda incluir a Coreia do Sul no Quad. Biden procura explorar o anseio de Seul sobre a efetiva proteção de Washington, mas parte da elite sul-coreana vê com desconfiança o estímulo de potências ocidentais ao aumento das capacidades militares do Japão, caso do acordo de defesa assinado com o Reino Unido em 05/05, com previsão de atividades em conjunto.

Os EUA têm dois aliados históricos no Quad, Austrália e Japão, mas enfrentam reticências da Índia para isolar a Rússia. Diplomatas indianos enfatizam que evitar confronto direto não contradiz preocupações humanitárias e que o Quad deveria focar no Indo-Pacífico.

A exemplo de outros países asiáticos, a Índia considera a falta de alternativas de Washington para enfrentar os efeitos econômicos e sociais de aderir a sanções contra a Rússia. Com a maior onda de calor das últimas décadas e da demanda de eletricidade, a Índia precisa ter fontes seguras de suprimento energético e quer ampliar o fluxo comercial com a Rússia. As importações de petróleo russo dobraram em relação a 2021.

Os quatro membros do Quad dizem compartilhar visões geopolíticas comuns, mas isso tem valido apenas na disputa com a China. Nova Délhi reitera pressupostos do não-alinhamento na política cautelosa diante da Rússia e também resiste a posicionamentos que agravem conflitos com Pequim. A Índia prefere disputar seus espaços com a China e dá sinais de desenvolver estratégia assemelhada à do grande rival, avançando dentro da ordem que existe, mas com objetivos próprios, explorando fraturas e descontentamentos.

No giro pela Europa, Modi recebeu pedidos de apoio contra Moscou e ofertas de cooperação. A Alemanha sinalizou ampliação do comércio bilateral de armamentos e projetos de energia renovável, o que ajuda a manter o apoio do Partido Verde na coalizão de governo em Berlim, e propôs atividades diplomáticas conjuntas em projetos na África e América Latina, áreas em que Pequim tem avançado.

As ambições de Nova Délhi se mostram mais amplas. Em reunião com diplomatas argentinos em 25/4, os indianos declararam apoiar a iniciativa de Buenos Aires de retomar negociações com os britânicos sobre a soberania das Malvinas.


*Revisão: Stella Bonifácio da Silva Azeredo

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI), do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI/UNESP).

*** Este artigo foi publicado anteriormente pelo jornal Valor Econômico.

Autor(a)

  • João Paulo N. Gabriel é doutorando em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP). Carlos Eduardo Carvalho é Professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Departamento de Economia, do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP) e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC).