Crédito da imagem: The Times

O dia 24 de fevereiro de 2022 foi registrado na história como o início da invasão russa ao território ucraniano, desencadeando uma série de consequências geopolíticas e geoeconômicas que afetam a região e o mundo como um todo. Embora distante do conflito físico, o Brasil está em uma posição vulnerável frente à avalanche de problemas que a guerra deve trazer para a economia global, principalmente para dois setores que impulsionam seu Produto Interno Bruto (PIB): agricultura e energia.

Com a interdependência das economias nacionais, determinada por um conjunto de fluxos de bens e serviços ancorados em acordos comerciais, tanto o agronegócio como o setor energético brasileiro possuem interconexões com as cadeias globais de valor. Estas são ameaçadas não só pelo conflito, mas também por sanções econômicas e comerciais que os países ocidentais devem impor à Rússia nos próximos dias.

A vulnerabilidade aumenta quando se observa o posicionamento obscuro do governo brasileiro diante do conflito. A visita do presidente Jair Bolsonaro no período mais tenso das relações diplomáticas entre o Kremlin e Kiev deu a entender que o país apoia o lado russo. Isso gerou um temor na elite brasileira, não só quanto ao comprometimento do Estado brasileiro com os valores democráticos e com a Carta das Nações Unidas, mas também quanto à capacidade de o país agir frente as sanções econômicas lançadas sobre um parceiro comercialmente relevante e pela crise humanitária que a guerra vai gerar ao longo do tempo.

A vulnerabilidade do setor agrícola brasileiro

Sem dúvida, o principal setor econômico afetado diretamente pelo conflito na Europa Oriental é a agricultura brasileira. Isso porque existe uma dependência estrutural do setor tendo em vista importações de adubos e fertilizantes que são amplamente utilizados nas lavouras de soja e milho como forma de potencializar a produção.

Segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), o Brasil produz apenas 20% dos adubos e fertilizantes para consumo interno, o que implica na importação de 80% do material de outros países. Desse valor, as empresas brasileiras importaram, em 2021, 62% de fertilizantes e adubos produzidos na Rússia, um dos maiores produtores da matéria-prima.

Figura 1 – Principais produtos russos importados pelo Brasil em 2021

Fonte: Ministério da Economia (2022)

Um levantamento realizado pelo Banco RaboBank demonstra que a Federação Russa é o 2º maior produtor mundial de fertilizantes nitrogenados e potássio. Além disso, o país ocupa a 4ª colocação na produção de fertilizantes fosforados. Juntos, tais suprimentos são essenciais para elevar a produtividade das lavouras de soja e milho no Brasil, as quais já apresentam custo elevado com tecnologia e transporte.

A dificuldade de importar os fertilizantes da Rússia, tanto por elevação dos preços no mercado internacional, como por cumprimento de sanções econômicas, deve impactar as próximas safras de soja e milho no Brasil justamente por aumentar os custos de produção dessas commodities. A elevação dos custos dos insumos pode desestimular a oferta do produto no mercado internacional, diminuindo o fluxo de exportações e a competitividade do setor agrícola.

Os impactos no setor energético brasileiro

A Federação Russa é grande expoente do mercado internacional de Petróleo e Gás, uma vez que ocupa a terceira posição no ranking global de produção de petróleo e o segundo lugar na oferta de gás natural (ver figura 1). As imensas reservas de recursos energéticos condicionam o país para a exportação, cuja coordenação se realiza através de uma política energética pautada pela maximização dos interesses das empresas estatais, bem como pelo alinhamento com a política da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP+).

Por ser uma grande produtora de petróleo, a invasão russa já desestabilizou a cadeia global de fornecimento de hidrocarbonetos, fato sintetizado no aumento de preço do barril de petróleo. Nos últimos dias, o barril de petróleo tipo Brent estava cotado a 115 dólares. Certamente, países importadores de óleo e gás e derivados devem sentir o impacto dessa variação de preço nos próximos dias.      

Figura 2 – Maiores produtores de gás natural em 2020

Fonte: IBP (2020)

No mais, a Rússia conseguiu se aproveitar da escassez energética europeia para implementar grandes projetos de fornecimento de gás natural na região e capitalizar as empresas estatais do setor. Em duas décadas, o país já fornecia 55% do gás consumido na Alemanha e 40% do volume ofertado na União Europeia, com perspectivas de elevar esses números por meio do projeto Nord Stream 2 (ver figura 3), o qual foi embargado por autoridades alemãs por causa do conflito.

Figura 3 – Rota dos gasodutos da Rússia na Europa

Fonte: Warsaw Institute (2019)

De acordo com Delgado (2020), essa profunda dependência dos europeus conferiu aos russos capacidade para negociarem os seus interesses geopolíticos com os países do velho continente. Estes receiam o corte do fornecimento do suprimento, assim como a redução da produção de petróleo russo, o que diminuiria a oferta no mercado e elevaria os preços. Portanto, com a condenação da invasão russa à Ucrânia, autoridades da União Europeia temem represália de Putin por meio da interrupção do fluxo de gás, o que os motivou a buscar novos fornecedores para garantir a segurança energética, destacando-se Estados Unidos, Qatar e Noruega.  

Read more:  A crise na Ucrânia. Por Cristina Pecequilo e Danielle Makio

Nessa dinâmica, o Brasil pode ser impactado por meio de choques na oferta de petróleo e gás natural causados pelo conflito, dois combustíveis que alimentam o setor elétrico brasileiro. Conforme Ribeiro (2022), o Brasil é um importador de Gás Natural Liquefeito (GNL) dos Estados Unidos, o qual detém 93% das importações brasileiras de GNL. Nesse sentido, a entrada da União Europeia na cadeia como potencial demandante pode elevar os preços de GNL no mercado internacional.  

Ribeiro (2022) sustenta que o Brasil utiliza esse suprimento para alimentar as termelétricas do Sistema Interligado Nacional (SIN). Conforme os custos de importação aumentam, os preços de geração com GNL serão atualizados em dólares e posteriormente repassados ao consumidor através dos reajustes na conta de energia.  

O peso das sanções internacionais

O agravante em relação aos impactos da guerra no Brasil se refere à aplicação das sanções internacionais pela União Europeia e Estados Unidos. A união do G7 para punir a Rússia por meio da exclusão de alguns bancos russos da rede de comunicação bancária SWIFT – sistema de comunicação entre bancos para facilitar transações financeiras – é, sem dúvidas, a mais danosa à economia russa e seus parceiros comerciais. 

Nesse contexto, o Brasil se encontra em uma posição vulnerável: se o governo brasileiro escolher acatar as sanções econômicas e financeiras impostas pelo G7 à Rússia, setores como o agronegócio podem sofrer represálias por meio da suspensão do fornecimento de adubos e fertilizantes russos. Além disso, empresas brasileiras exportadoras terão dificuldades em realizar transações financeiras com as importadoras russas, por causa da desconexão de parte de seu sistema financeiro da rede de comunicação bancária internacional. Isso deve reduzir o volume de exportações de produtos agrícolas como soja e carnes.

Por outro lado, não acatar as sanções impostas pelo G7 pode repercutir negativamente no âmbito das relações bilaterais com os Estados Unidos e União Europeia, dois parceiros estratégicos para a sustentação dos investimentos e fluxos comerciais brasileiros. A ação também pode afetar as relações com a Ucrânia, balizadas principalmente por acordos de cooperação técnica e científica no âmbito de lançamento de foguetes, laços comerciais, bem como vínculos culturais por causa da comunidade ucraniana de 600 mil pessoas no Brasil

A transferência dos custos geopolíticos para o consumidor

No atual cenário brasileiro, caracterizado por aumento da inflação e dificuldades macroeconômicas e políticas, o estouro de um conflito no cenário internacional tende a aprofundar a situação do país.

A absorção dos impactos geopolíticos pode se refletir na elevação dos preços internos que acompanham as cotações internacionais das commodities. Além disso, no setor agrícola, teremos aumento dos custos de produção das principais culturas exportadas por empresas brasileiras, até que se consiga substituir os fornecedores de fertilizantes, como a Rússia.

No caso do setor energético, o problema é profundo. O setor de óleo e gás deverá atualizar os preços de combustível de acordo com o mercado internacional, principalmente a Petrobras, o que deve elevar os preços da gasolina e do diesel. Por sua vez, o setor elétrico ainda está debilitado pelos impactos financeiros da pandemia da covid-19, recebendo ajuda de repasses governamentais. A atualização dos preços de combustíveis, sobretudo diesel e GNL, deve encarecer os custos de operacionalização das termelétricas em um cenário já comprometido pela baixa dos reservatórios das hidrelétricas. No fim, o consumidor verá aumento das tarifas justamente no ano eleitoral. 

O trigo é também um produto afetado diretamente pelo conflito, já que os dois principais atores, Rússia e Ucrânia, respondem juntos por 30% da oferta global do cereal, que já subiu 15% no mercado internacional. O Brasil é um grande importador de trigo e deverá sofrer com a elevação dos preços internacionais, traduzida principalmente pelo aumento de preços nos pães e massas.

Portanto, a guerra em questão deve impactar a economia brasileira por sua interdependência com a Rússia, em especial pelas importações de fertilizantes para uso na agricultura brasileira. O setor energético também será afetado com a atualização das cotações, com consequências diretas para o setor elétrico, cujo funcionamento das térmicas depende de combustíveis importados. No todo, o governo federal deve se planejar para enfrentar os danos econômicos e políticos em seu posicionamento frente a este conflito que pode estar longe de acabar.


*Revisão: Rafael Seabra

** Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI), do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI/UNESP).

Autor(a)

  • André Andriw is a Master's student in International Relations at the Graduate Program in International Relations San Tiago Dantas (UNESP – Unicamp – PUC-SP). He holds a Bachelor's degree in International Relations from the Federal University of Roraima (UFRR). He is currently interested in International Political Economy and Renewable Energies