Na última quinta-feira (20), três membros das forças armadas da Venezuela e um civil se feriram em um confronto com supostos contrabandistas na região de fronteira com a Colômbia. Tal evento foi o estopim para a deflagração de uma crise diplomática, prenunciada pelas tensões que rodeavam o relacionamento entre os dois países nas últimas semanas, levando ao fechamento da fronteira por tempo indeterminado. Os ânimos já exaltados em Bogotá e em Caracas se intensificaram após o presidente Nicolás Maduro decretar Estado de exceção em seis municípios na região fronteiriça de Táchira, autorizando à Guarda Nacional a iniciar um processo sistemático de deportação de todos os colombianos que ali residiam.

Entre sexta (21) e terça-feira (25), 1.113 colombianos foram removidos de suas casas, que receberam a sinalização “D”, indicando a demolição, ou “R”, indicando a revisão do imóvel. Ademais, casos isolados relatam a abordagem pelas ruas e, igualmente, o envio de volta para seu país de origem. O centro de migrações de Cúcuta, no lado colombiano da fronteira, se converteu em principal refúgio dos cidadãos deportados. Parte deles chega apenas com a roupa que vestiam quando abordados, outros denunciam a separação arbitrária dos grupos familiares. As autoridades venezuelanas negam e garantem que o processo ocorre dentro do que a lei determina.

A verdade é que a crise saiu do plano diplomático, atingindo diretamente os cidadãos da fronteira, convertendo-se em uma crise social e humanitária. Mas o problema não é novo: há cerca de dois meses, Maduro afirmou que a Colômbia havia se tornado um “exportador de pobreza”, dado o intenso fluxo de cidadãos desse país para a Venezuela em busca de melhores condições de trabalho, saúde e educação. Na ocasião, o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, afirmou que seu país não exporta pobreza, e sim, empreende um modelo econômico que gera prosperidade. Os números oficiais dão conta de que 144.000 colombianos chegaram à Venezuela em 2014, ao passo que, desde janeiro desse ano, 121.000 já se estabeleceram no país. Estima-se que cerca de 5,6 milhões de colombianos vivam na Venezuela, regularizados pelo governo de Caracas ou não. Em geral, trata-se de uma população rural, que foge da violência, da guerra e da miséria, buscando no país vizinho segurança e serviços sociais básicos. Contudo, apesar de Maduro enxergar seu país como símbolo da garantia plena de direitos sociais para o povo colombiano, ele afirma que se está “chegando ao ponto limite para suportar essa imigração massiva”.

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Nessa quarta (26), as chanceleres dos dois países se reuniram em Cartagena para discutir a crise. O Secretário-Geral da Unasul, Ernesto Samper, foi convidado por Maduro para que viajasse até Caracas. Desde sua criação em 2008, a Unasul tem alcançado resultados positivos como fórum de articulação política para a resolução de crises regionais. Entretanto, Samper afirmou que a Unasul só pode mediar a crise após a solicitação dos dois países envolvidos.

Tais medidas tentam resolver a crise no âmbito diplomático. A crise, porém, sinaliza o desgaste de políticas internas dos dois países e a deterioração nas relações bilaterais, que se arrastam desde as tensões entre os governos de Hugo Chávez e Álvaro Uribe, quando se romperam as relações diplomáticas. Ou seja, enquanto Maduro continuar explorando seu discurso nacionalista de “inimigo externo”, buscando aumentar o apoio popular às eleições de dezembro e enquanto Colômbia e Venzuela não elaborarem uma estratégia de longo prazo para amenizar a atividade dos contrabandistas na fronteira, o problema persistirá e, cedo ou tarde, uma nova crise poderá eclodir. E permanecer.

Autor

  • Arthur Murta

    Professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP. Doutorando em Relações Internacionais na Universidade de São Paulo (USP) e Mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP), com estágio de pesquisa realizado na Universidad de Chile (UChile). E-mail: [email protected]

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