Não é só no imaginário político e cultural dos povos que a França ocupa lugar de destaque. O país é peça-chave nas relações internacionais, no jogo entre as potências e na dinâmica da União Europeia. Seria impossível uma UE com a França seguindo o caminho da Grã-Bretanha ou fazendo corpo mole. O Estado francês pesa nas relações do Leste com o Oeste, dos Estados Unidos com a Rússia, do Norte com o Sul. E isso mesmo com a França não podendo mais ser a potência de antes.

Aprendemos a pensar a política, a democracia e a liberdade com os franceses. O Iluminismo ajudou a aproximar os humanos das luzes da Razão. A Revolução de 1789 foi um farol do progressismo mundial e incorporou-se ao DNA da modernidade, das lutas sociais, do Estado democrático e dos ideais de igualdade. Ambos os eventos contribuíram decisivamente para nos trazer ao século XXI.

A capital em particular. Consta que Ernest Hemingway escreveu a um amigo: “Se, na juventude, você tiver tido a sorte de viver em Paris, ela o acompanhará sempre até ao fim da vida, vá você para onde for, porque Paris é uma festa móvel”. Era a celebração da Cidade-Luz, uma espécie de berço intelectual da Humanidade, que o escritor norte-americano revirava pelo avesso, vendo-a não só pelos cartões-postais, mas pela vida cotidiana, com suas belezas, agruras e dificuldades.

O livro em que Hemingway reuniu suas memórias a respeito, Paris é uma festa, voltou à lista de best-sellers em novembro de 2016, depois dos atentados terroristas na cidade. Foi uma prova de que as pessoas continuavam pensando positivamente em Paris, em contraste com o horror daqueles dias. A reiteração de um estilo de vida (a noite, os cafés, os bares, a música, o vinho, a comida, a alegria) que havia sido violentamente contestado pelo terror. Hemingway falou de uma Paris que talvez nem sequer existisse na época, fruto de sua experiência pessoal e bem localizada num tempo memorialístico.  Uma Paris quase inocente, bem diferente da cidade atual, com suas banlieues apinhadas de émigrés e de pobres afetados pelos preços imobiliários, com sua vida “líquida”, turistas em magotes e ruas cheias de indignação, em que há protesto e resistência, mas pouca proposição.

Em abril e maio próximos, os franceses escolherão, em dois turnos, um novo presidente da República. O quadro político é confuso e está pondo a França na berlinda, submetendo à prova seu patrimônio político e cultural.

Partidos e candidatos se mostram sem viço. O sistema político parece à beira do precipício. O próprio modo de vida está em acelerada transfiguração. Apostas e cálculos políticos são suspensos, perguntas ficam sem respostas, utopias desvanecem. A sombra do regressismo antidemocrático parece estacionada sobre a França libertária e culta.

O Le Monde, por exemplo, em um de seus editoriais (14/02/2017), foi direto ao ponto:  “2017 é um ano crucial e, até agora, tudo está sendo feito para manter o mais longe possível os eleitores das urnas. Sem um debate de fundo, nada permite lançar luz sobre os temas pesados do momento, que, no entanto, não faltam. A campanha eleitoral simplesmente não existe. (…) Em vez de um confronto de projetos, a maioria dos atores se esquivam ou ainda estão a procurar seu papel, como se não estivessem seguros de nada. A paisagem flutua perigosamente. […] O que desliza hoje é a capacidade dos candidatos de levar até o fim as ideias que puseram na mesa para tentar ganhar.”

A primeira impressão é que tudo está se recompondo, menos a extrema-direita, unida em torno de Marine Le Pen e da Frente Nacional, que continuam a cavar as trincheiras da xenofobia e da recusa à Europa.

Do lado de seu antagonista “típico-ideal”, o caos. O presidente François Hollande desistiu de se candidatar a um segundo mandato, soterrado pelos baixos índices de popularidade. Nas primárias do Partido Socialista, o ex-primeiro-ministro Manuel Valls foi derrotado por Benoît Hamon, de uma ala mais radical, que se apoiou na frustração dos militantes com a guinada liberal do governo, vista como contrária à tradição da social-democracia.

Conseguirá o PS manter sua unidade, retomar a força eleitoral e repor seus valores no imaginário social? Hamon quer fazer o socialismo francês ir para “fora do centro”, de modo a recuperar uma identidade perdida e magnetizar a classe trabalhadora com um programa anticapitalista que inclui a renda básica, a cobrança de impostos sobre robôs e a legalização da maconha. Parece flertar com uma espécie de “pós-social-democracia”.

Poderia ter chance se conseguisse atrair aquilo que está à esquerda do PS (ecologistas, comunistas, radicais). Ali, porém, instalou-se um deserto propositivo, em parte disfarçado pelo radicalismo fundamentalista, que invariavelmente contesta a própria social-democracia.

Na centro-direita, os Republicanos alijaram da disputa o ex-presidente Sarkozy e o experiente Alain Juppé, entregando a candidatura a François Fillon, político pouco expressivo que, dias após a nomeação, foi envolvido numa complicada trama protagonizada por sua esposa, suspeita de ter sido remunerada por atividades e empregos tidos como inexistentes. A repercussão do fato poderá desidratar Fillon.

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Em meio a isso, surge um candidato para fazer o papel do “novo”: Emmanuel Macron, jovem, rico, culto, apoiado por um movimento independente (En Marche!), nem de esquerda e nem de direita, cheio de promessas de mudança. Até agora, corre por fora e vem sendo poupado de maiores críticas. Tem o centro à disposição, situação consolidada com a adesão à sua campanha de François Bayrou, líder do centrista Movimento Democrático (MoDem).

Não é outro o motivo que está convertendo Macron na bola da vez, alvo do que tem sido considerado um novo ataque da “ciber-propaganda russa”, a mesma que teria atingido Hillary Clinton nos EUA.  A direção do movimento En Marche!, de Macron, passou as últimas semanas desmentindo acusações e boatos que dizem que o candidato é financiado por um rico lobby gay ou que é um agente americano a serviço do lobby dos bancos.  A baixaria também deixa marcas na França. A tal ponto que um grupo de 37 veículos de imprensa do país, incluindo todos os mais importantes – como ‘Agence France-Presse (AFP)’, Le Monde e Les Echos -, decidiu criar uma ferramenta para identificar e combater notícias falsas na internet.

Macron tem resistido. Flutua sobre o sistema político, os partidos em crise e os lugares demarcados da política francesa. Abre-se oportunisticamente para o liberalismo e a esquerda moderada, propondo um “terceiro tipo” de esquerda, que proclama a liberdade e a solidariedade como valores mais importantes que a igualdade, explorando o individualismo prevalecente.  Mantém assim distância tanto da social-democracia (o “segundo tipo”) quanto do “primeiro tipo” (o comunismo), ambos ancorados na fraternidade de classe e na intervenção do Estado.  É favorável à globalização e defende sem vacilações a União Europeia, o que o converte em contraponto “ótimo” do nacionalismo de Le Pen.

A incerteza ocupa hoje o palco. Não perdoa nem sequer os setores que estão à esquerda do PS — ecologistas, comunistas, trotskistas, a Frente de Esquerda de Jean-Luc Mélenchon –, igualmente com dificuldades para demarcar um terreno próprio e decolar. Serão eles capazes de convergir com um mínimo de unidade para a candidatura de Hamon, o que poderia projetá-lo para o segundo turno? Haverá a débâcle da candidatura de Fillon? Os Republicanos voltarão à luta com Juppé ou Sarkozy? Os moderados do PS derivarão para um apoio discreto a Emmanuel Macron, fato que poderia dar a ele um eixo mais consistente? Hollande manterá o silêncio ou irá se engajar de algum modo na campanha?

A social-democracia parece solta no ar. Arrasta consigo, por inércia, o conjunto das esquerdas. Sente falta da antiga base operacional, assentada na vida organizada, na classe operária e na estrutura sindical. O próprio Estado de bem-estar, por ela modelado, tem sua reprodução dificultada pelas novas formas de produção capitalista e pela corrosão das fontes de financiamento. Sem potência, a social-democracia não consegue se renovar. E isso quando maior é a necessidade de políticas capazes de contestar a desigualdade, o desemprego e os problemas ambientais.

A eventual disputa entre Le Pen e Macron tem sido interpretada por analistas políticos como um embate entre o antissistema e o “pós-sistema”: se a candidata da Frente Nacional se opõe ao sistema e promete destruí-lo, Macron anuncia a disposição de ignorar o sistema e construir um outro. Sua própria candidatura pode vir a se converter naquilo que foi chamado de “sintoma de um sistema político sem fôlego e ofegante”, à bout de souffle.

A própria sociedade francesa está em transição, passando aceleradamente para uma situação “pós-industrial” aprofundada. Manifesta muitos imponderáveis, que hoje estão a ser requalificados pelas dores e contradições da situação europeia. Na dimensão política, o impasse ganha espaço, refletindo o desajuste entre um sistema político amarrado a um passado que se desfaz rapidamente. Para dramatizar ainda mais, a França também sofre os efeitos da crise mundial e das políticas de austeridade com que se tem tentado enfrentá-la. Com partidos que não se renovam nem dialogam com a sociedade, os franceses parecem se dar conta de que o curto e o médio prazos estão em suspenso, à espera de maiores definições.

Até agora, os prognósticos só não oscilam no que diz respeito a Marine Le Pen, a única a se beneficiar da confusão, já que não encontra quem a confronte com eficácia. O “populismo”, a ideia demagógica de resgatar a França para os franceses e a promessa de um “Frexit” deverão levá-la ao segundo turno, desde que neutralize as denúncias dos últimos dias de que dois de seus assessores também estão ligados a empregos fictícios.

Há as pesquisas, claro. As mais recentes dizem que Macron derrotará Le Pen no segundo turno por 61% a 39%. Sondagens eleitorais, porém, costumam errar. E ainda faltam dois longos meses até o primeiro turno de 23 de abril.

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