Ilustração de Nicola Jennings

A estranha morte da Inglaterra liberal, de George Dangerfield, é um dos mais famosos títulos em língua inglesa. Estaríamos agora presenciando a estranha morte da Europa liberal? À medida que o populismo antiliberal toma conta do centro da Europa, ameaçando o trono da chanceler alemã, Angela Merkel, o perigo está bem aparente.

Há uma nova linha divisória política na Europa, pelo menos tão importante quanto a antiga divisão entre esquerda e direita. Ela divide partidos existentes e faz com que surjam outros novos. Abre novas frentes entre as nações, bem como entre partidos. De um lado, há o campo “Merkron” (Merkel-Macron), de outro o “Orbini”. (Orbán-Salvini).

Apesar de todas as diferenças importantes entre Merkel e Emmanuel Macron em tópicos como o da zona do euro, ambos defendem soluções europeias, liberais, com base na cooperação internacional no âmbito da União Europeia e global. Daí, Merkron.

E, apesar de todas as diferenças entre o líder húngaro, Viktor Orbán, e o populista italiano Matteo Salvini, ambos advogam soluções nacionais, não liberais, procuram lançar a culpa em terceiros, excluindo ou expulsando os que definem, étnica e culturalmente, como “os outros”. Daí, Orbini.

O primeiro-ministro socialista da Espanha, Pedro Sánchez, e o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, claramente pertencem ao campo Merkron, ao passo que o partido CSU, da Baviera, o chanceler austríaco, Sebastian Kurz, Jaroslaw Kaczynski e o Partido da Lei e da Justiça, na Polônia, e alguns defensores do Brexit, estão no campo Orbini.

A batalha entre o merkronismo e o orbinismo vai configurar a política durante o próximo ano. À medida que os políticos se preparam para as eleições europeias em 2019, o maior agrupamento partidário no Parlamento Europeu, o Partido Popular Europeu (EPP), está se agarrando desesperadamente ao Fidesz, partido de Orbán, e tem se insinuado para o partido da Lei e da Justiça, da Polônia, temendo que o campo Orbini forme uma nova aliança para competir com ele. Usando o nome do seu partido, a Liga, Salvini ameaça criar “a Liga das Ligas da Europa”. Há muito tempo, uma eleição europeia não era tão imprevisível.

Certamente, nem todas as fraturas observadas dentro da UE podem ser situadas no eixo Merkron-Orbini. Os desacordos sobre a zona do euro e o próximo orçamento europeu, por exemplo, têm bases mais nacionais do que políticas. O Brexit significa 27 países contra um. Mas, no tocante à maneira como a política democrática nacional se insere na política europeia, há um novo jogo sendo jogado.

No momento, o campo Orbini está na frente. O grupo Merkron parece cansado e na defensiva, como as seleções de Espanha e Alemanha na Copa, jogando com persistência, mas não conseguindo marcar um gol. O problema da imigração, em torno do qual o campo Orbini congrega suas tropas, é crucial e simbólico.

Seguindo o que o cantor dissidente Wolf Biermann vividamente chama de “o maravilhoso erro” de Merkel em 2015, um grande número de refugiados chegou à Alemanha em um curto espaço de tempo. E muitos europeus orientais vieram para a Grã-Bretanha após a ampliação da UE, em 2004, e preocupações com habitação, emprego, saúde e educação contribuíram para o voto favorável ao Brexit. Itália, Espanha e Grécia vêm lutando, sem muita ajuda dos seus parceiros europeus, para acomodar refugiados e pessoas que arriscam a vida na travessia do Mediterrâneo em busca de uma vida melhor na Europa.

A imigração também é um tema simbólico, envolvendo preocupações com cultura e identidade, como pedaços de metal em torno de um ímã. É correto notar que os níveis de imigração descontrolada na UE caíram muito desde 2015. Mas não solucionaram o sentimento das pessoas sobre como seu país já mudou. Em pesquisa realizada pela Fundação Bertelsmann em 2017, 50% dos entrevistados concordaram com a afirmação de que “há tantos estrangeiros em nosso país que eu me sinto um estrangeiro”. Na Itália, esse porcentual chegou a 71%.

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George Dangerfield afirmou que os liberais sofreram um declínio no início do século 20, na Inglaterra, porque não conseguiram responder às novas forças de peso que surgiram, incluindo o movimento pelo voto feminino, o movimento trabalhista e o nacionalismo irlandês. Cem anos depois, a crise da Europa liberal, em grande parte, resulta de forças que o próprio liberalismo criou. Liberalização, europeização e globalização produziram mudanças rápidas e visíveis nas sociedades europeias.

Para muitos, a sensação foi de que se mudou para pior. Explorando esse descontentamento, os populistas oferecem um discurso simplista, afirmando que erguer a ponte levadiça nacional e “retomar o controle” resultará no renascimento de um passado de bons empregos, famílias felizes e uma comunidade nacional tradicional. Por outro lado, a revolução digital, hoje avançando na direção da inteligência artificial, significa que veremos mudanças mais perturbadoras e mais insegurança, especialmente no mercado de trabalho.

O contra-ataque liberal na Europa implica uma lista de tarefas enorme. Será difícil encontrar respostas práticas e racionais para os reais problemas de desigualdade e insegurança. Isto exigirá políticas radicais, como a adoção de uma renda básica universal ou garantias de emprego. Diante de uma meta que muda com rapidez em razão do ritmo da revolução digital, estamos apenas no início da busca por respostas. Mesmo que você tenha um novo John Maynard Keynes, leva tempo para aproveitar seu trabalho intelectual e elaborar um programa que leve a uma vitória de um Partido Trabalhista sob comando de Clement Attlee.

Além disso, a Europa liberal terá de encontrar maneiras de solucionar as profundas necessidades em termos de comunidade e identidade que os populistas exploram. Como podemos ver na Copa, a identidade nacional é uma fonte incomparável de paixão e de sentimento de pertencer a um país. Em um futuro imediato, é ilusão achar que qualquer identidade transnacional ou supranacional possa competir.

Assim, embora fazendo todo o possível para intensificar uma identidade europeia comum, e na verdade uma identidade global (que a Copa de algum modo representa), não podemos abandonar a nação aos nacionalistas. Necessitamos de um patriotismo cívico, positivo, como aquele que Macron vem promovendo na França, para complementar o europeísmo e o globalismo.

Depois, será preciso fundir tudo isto num programa eleitoral vitorioso e ter um partido que vença a eleição com base nesse programa. Mas não temos muitos partidos nesse estilo. Macron, com seu movimento République en Marche!, é a exceção que comprova a regra. Por toda parte, liberais estão perdendo para tendências mais iliberais nos principais partidos de centro-esquerda e de centro-direita, incluindo o Labour e o Partido Conservador na Grã-Bretanha. E partidos de centro-direita somente têm conseguido manter o poder por apaziguar as abordagens mais iliberais dos seus parceiros de coalizão populista, como na Áustria e na Holanda.

Tudo isto me leva a concluir que o contra-ataque da Europa liberal levará alguns anos. As coisas provavelmente vão piorar antes de melhorar, com mais gols para o campo Orbini e contratempos para o Merkron. Não acredito que estamos a presenciar a estranha morte da Europa liberal, mas precisamos nos preparar para uma recuperação longa e árdua.


Publicado em O Estado de S. Paulo, 09 Julho 2018. Tradução de Terezinha Martino.