As eleições para presidente nos Estados Unidos acontecerão apenas ano que vem, mas os pré-candidatos estão com suas campanhas em ritmo acelerado.

Pelos democratas, o que parecia ser uma disputa fácil tem se transformado em um embate polarizado entre Hillary Clinton e Bernie Sanders. Após denúncias de que teria usado um telefone particular para exercer certas atribuições do cargo, Clinton viu seu adversário crescer nas pesquisas. Sanders é considerado socialista, especialmente para os padrões americanos, notadamente liberais. Seu discurso tem buscado construir um candidato que privilegia um Estado de bem-estar social frente à crescente desigualdade do país – que persiste mesmo com o recente crescimento econômico.

Dentre os republicanos, têm ganhado destaque as declarações feitas pelo bilionário Donald Trump, conhecido por suas  opiniões fortes e, muitas vezes, preconceituosas. As afirmações de Trump sobre imigração, cidadania e relações exteriores têm preocupado os americanos mais moderados e progressistas. A radicalização de seu discurso, porém, tem atraído alas mais conservadoras do eleitorado dos Estados Unidos, tradicionalmente ligadas ao Partido Republicano.

Um dos casos recentes diz respeito à fronteira México-Estados Unidos, marcada pela construção de um muro na divisa entre os dois países. Trump causou polêmica e embaraço às autoridades ao sugerir que os mexicanos são culpados pelo aumento da criminalidade nos Estados Unidos. O discurso, xenófobo e simplista, reforça a ideia do muro, mas dessa vez entre duas identidades que, de acordo com ele, não se misturam nem se complementam. Para Trump, os mexicanos seriam responsáveis pela entrada de drogas nos Estados Unidos e pela deturpação dos ideais norte-americanos. Seu discurso posiciona o candidato perante a questão da imigração, mas atrai uma parcela da população que aceita passivamente esse pensamento, transferindo para o “outro” a culpa por questões mais complexas e densas.

Essa discussão se insere em outra maior, cuja centralidade está na própria formação do que é o americano. Os Estados Unidos orgulham-se da imagem de que são um povo formado por diversas culturas, nacionalidades e religiões – o que eles chamam de “melting pot”. Seriam um país de imigrantes por natureza. Essa afirmação está correta, mas deve ser contextualizada e passada a limpo para que se entenda como essa “mistura” aconteceu. Para tanto, podemos fazer um paralelo entre a história do país com os eventos que acontecem atualmente – veremos que as narrativas se entrelaçam e se confundem.

Apesar de existirem outras razões, especialmente de ordem econômica, a Guerra Civil que dividiu o país entre Norte e Sul e chegou ao fim em 1865 marcou o debate acerca da cidadania e das relações raciais nos Estados Unidos. Após o conflito, ficou estabelecido por meio de emendas constitucionais que todos, brancos e negros, seriam iguais, portanto, cidadãos. Na prática, entretanto, a maior parte da população negra era considerada tácita ou juridicamente como cidadãos de segunda classe: isso aconteceu devido à criação de constituições estaduais que limitavam seus direitos, chamados de “Black Codes”.

A luta por direitos civis e políticos igualitários nos Estados Unidos seguiu por décadas. Ao mesmo tempo em que mais imigrantes europeus entravam no país para ajudar a povoar suas terras a oeste, os negros eram reiteradamente segregados no âmbito geográfico e espacial. A primeira conclusão a que se pode chegar é essa: os similares, brancos e cristãos, eram bem-vindos – os demais, não.

Ainda no século XIX e início do século XX, os Estados Unidos passaram ao status de potência regional no sistema internacional. Após uma guerra de vitória fácil contra os espanhóis, várias ilhas e territórios tornaram-se espólios, dentre eles Cuba e as Filipinas. Essa “anexação” foi permeada por um debate muito parecido com o da emancipação dos negros pós-Guerra Civil: o que fazer com essa população que passaria a estar agora sob domínio americano? Mais uma vez a questão da cidadania permeava o contexto político do país, e a relação de alteridade era novamente colocada como ponto de partida.

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Muito influenciados pelo que se convencionou chamar de darwinismo social, um grande número de intelectuais, empresários e políticos acreditavam que alguns povos eram naturalmente superiores aos demais. Partindo da ideia de uma seleção natural, ao pegar emprestado o termo de Charles Darwin, reiteravam que as relações sociais seguiam as relações biológicas e naturais, ou seja, veríamos sempre a sobrevivência do mais forte como sinal de evolução e adaptação ao ambiente. Para esses tomadores de decisão, os brancos do norte da Europa representariam o ápice dessa evolução e eles, como Anglo-Saxões, compartilhariam o mesmo patamar elevado que determinaria a escala de superioridade racial existente.

Não é difícil imaginar que as discussões da época foram pautadas não apenas por uma xenofobia expressa, mas por noções racistas e deterministas dirigidas ao “outro” – que poderia ou não morar nos Estados Unidos ou em territórios conquistados pelo país, mas que no fundo não seria americano. Na prática isso significou a experiência imperialista dos Estados Unidos em Cuba e Filipinas, principalmente. Mas também a escalada de conflitos onde essa visão foi colocada como norma e lei, como em 1882 na exclusão de chineses da Califórnia e nos embates com japoneses também nesse estado e na região do Pacífico.

Alguns poderiam perguntar a razão de ir tão longe para falar das eleições atuais, em especial do candidato Donald Trump. A primeira é que a História, por mais que queiramos, não é sempre linear ou evolutiva – inclusive passa por ciclos imperfeitos de reinterpretação de eventos que resgatam narrativas e discursos de outros períodos. A segunda é que o debate atual tem focado bastante nas questões relacionadas ao cidadão americano, a quem ele é e a quais são suas prerrogativas e seus direitos.

Para Trump e outros candidatos republicanos, notadamente os mais radicais ligados ao Tea Party e à ala neoconservadora que aparentemente busca retornar ao jogo político, o americano é exatamente o mesmo que se convencionou imaginar e construir mais de um século atrás: branco, cristão e anglo-saxão. Existe inclusive um termo para dssa denominação: WASP – white, anglo-saxon, protestant. Para uma parte da população americana, aqueles que não se encaixam nesse grupo não compartilhariam os valores, as ideias e os interesses inerentes aos cidadãos dos Estados Unidos. Muitos analistas associam esse pensamento às tensões raciais no país, destaque constante no jornalismo americano.

O discurso de Trump contra os mexicanos ressalta essa construção de alteridade: nós, os americanos, contra eles, os mexicanos, os hispânicos. Essa categorização simplista busca produzir coesão em um país marcado por divisões étnicas, que se vangloria de ser formado por uma mistura de raças e nacionalidades, mas que ainda não aprendeu a aceitar completamente o diferente.

Mais ainda, essa narrativa expressa um descontentamento em relação às políticas atuais do presidente Barack Obama, que busca incluir diferentes minorias por meio de programas do governo federal e de pressão para alteração do ordenamento jurídico. O sucesso obtido por Obama provavelmente contribui ainda mais para a radicalização da disputa.

Os Estados Unidos são sim um país de vários povos, etnias e religiões, mas que muitas vezes vê cada um desses grupos de forma separada. Compreender esse processo é essencial para entender o que acontece nas eleições atuais. O debate do século XIX permanece até hoje.