Boris Johnson começou perdendo. Deputados britânicos tomaram, nesta semana, o controle do Parlamento, alarmados com a insistência do premiê de tirar o Reino Unido da União Europeia, em 31 de outubro, mesmo sem acordo. Depois, aprovaram uma lei que impede um Brexit sem acordo. E, por fim, rejeitaram o pedido por eleições antecipadas. Foi uma semana de drama político de alta voltagem e o ápice de dois anos de manobras táticas e processuais que marcaram a política britânica.

Com o Parlamento flexionando músculos que antes pareciam flácidos, Johnson está isolado. Furioso, tentou emplacar eleições. Falhou na primeira tentativa e fará uma nova na segunda-feira, 9 de setembro. Johnson também puniu os deputados de seu partido que votaram contra ele e perdeu a maioria depois de um deles desertar para o Partido Liberal-Democrata.

A mãe de todos os Parlamentos é uma anomalia. Sem conseguir depor a monarquia após uma revolução fracassada, no século 17, e sendo uma potência imperial em vez de ter passado por uma guerra de libertação, o Reino Unido nunca teve um momento de fundação constitucional. Isso traz consigo um peso conservador muito forte. Sob essa pompa ritualística, o Parlamento tornou-se muito poderoso ao longo dos anos. Um premiê com uma maioria confortável, como Margareth Thatcher e Tony Blair, pode refazer o país. Mas, sem uma maioria sólida, o Parlamento resiste ao líder mais ambicioso.

As táticas não são novas. Theresa May padeceu do mesmo mal de Johnson, quando o Parlamento a obrigou a pedir uma prorrogação do prazo do Brexit em abril. Mas, desta vez, a complexidade da nova lei é um indicativo da quebra de confiança entre Johnson e o Legislativo. A lei que submeteu May foi aprovada porque ela reconheceu sua derrota. Johnson, por outro lado, está em guerra com o Parlamento e prometeu “retomar o controle” da Câmara dos Comuns.

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O progresso das negociações do Brexit tem sido excessivamente institucional, conduzido por procedimentos técnicos e batalhas jurídicas. Os procedimentos legislativos têm sido explicados por constitucionalistas ao grande público numa demanda poucas vezes vista na história britânica. Já a população mostra a insatisfação com os políticos todos os dias. O entusiasmo é raro. Apenas um terço acredita que a classe política age em seu interesse e metade não acredita ser levada em conta nas decisões.

O Brexit tinha uma grande probabilidade de ser uma questão técnica e complexa. A tendência do bloco de burocratizar em excesso suas decisões complica um processo que já é confuso. Mas a causa da crise britânica sempre foi doméstica. Suas raízes estão na decisão de May de conduzir o Brexit de modo autocrático, sem ouvir o Parlamento. Esse labirinto institucional do Brexit, dividido entre a democracia plebiscitária do referendo e os métodos tradicionais do Parlamento para implementar o processo, está no cerne da questão.

Ao vender o referendo como um exercício democrático e o debate como politicagem anti-Brexit, Johnson acredita estar reconfigurando o cenário político. Talvez o estrategista de Johnson, Dominic Cummings, pense que o público esteja ansiando por um homem forte para guiá-lo. Mas esse líder pode ser feito de barro. Apenas 27% dos britânicos apoiam a decisão do premiê de ampliar o recesso do Parlamento. Por isso, novas eleições devem ocorrer. A questão é quando. É sabido que Johnson pretende concorrer na base do “povo contra os políticos”. Talvez seja hora de a oposição se organizar na base de “o país contra Johnson”.


Fonte: The New York Times | O Estado de S.Paulo. Tradução de Luiz Raatz.