A sensação de que o levante chileno aconteceu repentinamente deve ser repensada com bastante cautela. Certa incredulidade paira no ar entre pessoas que consideravam o Chile um modelo de economia saudável, um modelo a ser seguido e o melhor exemplo de um neoliberalismo exitoso.

Por outro lado, quem compreende ser esta uma reação evidente e contrária ao modelo neoliberal e, portanto, carregando certa similaridade com a reação anterior ocorrida no Equador, também precisa ter certo cuidado.

O objetivo deste texto é o de justamente chamar a atenção para alguns pontos centrais para um melhor entendimento e para o desdobramento de análises futuras sobre a atual crise chilena.

Chile: continuidade neoliberal e suas erupções contestatórias

 Ao finalizar o capítulo dedicado ao Chile em livro que lancei recentemente e que foi finalizado em 2018, comentei sobre a passagem de Bachellet para Piñera:

“Seu governo deixou um lastro de frustrações e o próximo mandatário terá a tarefa de assumir sua agenda conservadora que alie crescimento econômico com justiça social, ferida ainda aberta em uma sociedade marcada por quase duas décadas de autoritarismo aliado ao neoliberalismo e por uma transição marcada por enclaves e pela manutenção do modelo econômico excludente.” (Oliveira, 2019 p.53)

Este trecho ilustra bem os dilemas da democracia neoliberal chilena, um exemplo notório entre os países andinos que optaram pela continuidade neoliberal e se abstiveram  de passar por processos de mudanças e avanços institucionais e também de aprofundamento da democracia no sentido substantivo e não meramente procedimental, como vislumbrado em seus vizinhos Venezuela, Equador e Bolívia e que passaram por processos políticos transformadores  como a Revolução do Socialismo do século XXI, a Revolução Cidadã e a Revolução Bolivariana do MAS, respectivamente.

A não realização de transformações políticas, econômicas e sociais durante os quase trinta anos de redemocratização no Chile, levou a momentos de forte contestação popular anteriores ao que agora presenciamos em 2019.  Assim, já temos que levar em conta que a reação popular chilena é uma reação não contra a reconfiguração neoliberal, mas à sua manutenção. Também temos o fato de que outros momentos foram exemplares do descontentamento da população chilena nos últimos anos.  As manifestações de 2006, 2013, 2011 e 2018 foram sintomáticas e destacaram bandeiras e reivindicações que se naqueles momentos pareciam particulares, refletiam as demandas pelo aprofundamento de uma democracia protegida, de amarre e que vivencia uma série crise de legitimidade institucional e de governabilidade.

Em 2006 e 2011, tivemos mobilizações estudantis em função das reivindicações por um sistema de ensino público e gratuito. Em 2013, uma grande marcha mapuche em direção à capital foi motivada pela repressão policial às lideranças indígenas em eventos anteriores. Em 2018, manifestações em defesa do direito dos mapuche também repercutiram nacionalmente e foram caracterizadas pela violência no embate entre manifestantes e as forças policiais. As manifestações de estudantes e do povo mapuche, mesmo aquelas de menor envergadura, são constantes ao longo dos últimos anos e sinalizam muito bem tanto às contradições do processo neoliberal quanto às injustiças remanescentes do processo de colonização. Em 2018, aos estudantes, aos indígenas, se somaram as feministas chilenas, que trouxeram o debate sobre gênero e diversidade, violência, assédio e o machismo que também é institucional e inerente ao processo colonial e à sua roupagem recente, o neoliberalismo. As “ tomas” e “marchas” de lenços lilás bradando pelo fim da violência contra a mulher, a favor de seus direitos reprodutivos e pelo fim do assédio aos quais são (somos) cotidianamente vítimas reacendeu o debate em torno de um modelo político e econômico que é excludente e marginalizador, por seu viés racista, patriarcal e classista, para dizer o mínimo.

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Doña Juanita chega a Plaza Italia 

O descontentamento em torno do aumento dos preços da tarifa do metrô deu vazão ao descontentamento mais generalizado que sustentou as manifestações passadas, que remete a crise de legitimidade da classe política desde 2017 e exacerbou os ânimos ao recordar os descontentamentos cotidianos pelo alto custo de vida e pela privatização dos serviços públicos há décadas. O forte aparato militar que fez recordar que elementos propícios da ditadura pinochetista ainda persistem em um Estado democrático de direito, suspenso pelo estado de emergência, acendeu uma forte indignação popular contra o Estado. Isso foi exacerbado pela declaração infeliz do presidente Piñera que considerou que seu país vive em uma guerra contra um inimigo poderoso, ao se referir às primeiras mobilizações.

As manifestações de outubro de 2019 ecoam as grandes marchas, as principais mobilizações dos anos passados e dão vazão às demandas não atendidas pela democracia neoliberal chilena nas últimas décadas. Elas apontam a um futuro que anseia ser construído! Mesmo impedido o povo quer chegar ao La Moneda[1].

Diferentes ruas nos levam à Plaza Itália[2], diferentes lutas, várias bandeiras. São infinitos os rostos que se misturam nesta primavera chilena. ¡Así es bueno explicar a Doña Juanita que esto no fue al tiro![3]A nossa Marianne chilena caminha, guiando o povo com sua bandeira mapuche.

Referências

BRUNNER, José Joaquín. Nueva Mayoría. Fin de una ilusión. Grupo Zeta. Santiago. 2016
SOLIMANO, Andrés. Capitalismo a la chilena: y la prosperidad de las élites. Ed. Catalonia. Santiago. 2012
ZERÁN, Faride (org). Chile actual: crisis y debate desde las izquierdas. LOM ediciones. Santiago. 2017

[1] Durante os protestos recentes a polícia repreendeu com violência às marchas que pretendiam chegar até o palácio presidencial.

[2] Referência à marcha de um milhão de pessoas que ocorreu no dia 25 de outubro.

[3] Frase que referencia a expressão coloquial chilena Doña Juanita (mulher comum, do povo) e à gíria al tiro que significa que algo aconteceu repentinamente.

*Texto dedicado ao valente povo chileno, em especial ao povo mapuche, aos movimentos feministas e aos estudantes que lutam pelo direito de viver em paz.


Renata Peixoto de Oliveira

Cientista política, professora da UNILA (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) e autora do livro Sem Revoluções: Os dilemas das democracias neoliberais andinas. Editora Appris.

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