Não é todo mundo que leva em conta a diferença entre Internet e Web. Enquanto a Internet é uma rede, no sentido físico, que fornece serviços para aplicações distribuídas, a Web é uma dessas aplicações, que funciona sobre a infraestrutura de redes da Internet e, possivelmente, é a aplicação mais usada nesse ambiente. Como a Web é ubíqua, acaba sendo confundida com a própria Internet.

A Internet foi criada no final da década de 1960 como uma evolução do sistema de telefonia e amplitude da sociedade da informação. A criação da World Wide Web ocorreu vinte anos depois, em 1989, como um sistema global de hipertexto, com três pilares fundamentais: o HTTP (Hypertext Transfer Protocol), cuja função é transferir documentos web; a linguagem HTML (Hypertext Markup Language), que serve para escrever os documentos de hipertexto; e a URI (Uniform Resource Identifier), usada para identificar recursos e documentos. Essas três tecnologias compõem até hoje a base da Web.

Para possibilitar o desenvolvimento da Web e facilitar a vida dos usuários, o próprio criador da Web, Tim Berners-Lee, fundou em 1994 o Consórcio Internacional (W3C) responsável por desenvolver os padrões da Web. São esses padrões, ou recomendações, que permitem a visualização dos mesmos sites por usuários de qualquer lugar, estejam eles em São Paulo, em Pequim, nas Ilhas Maldivas ou em Beirute, e em qualquer dispositivo: computador, tablet, celular, relógio, etc. Basta ter conexão à Internet e acessar a Web por meio dos navegadores (Web browsers).

Com a evolução dos padrões e das tecnologias Web, houve uma evolução da Web de Documentos para a Web de Dados. Essa transição promoveu a criação de uma área específica no W3C para criar padrões relacionados a Dados, o Data Activity, cuja premissa é trabalhar o desenvolvimento das tecnologias Web relacionadas a enorme quantidade de dados que são diariamente publicados na Web. Grupos de trabalho como Boas Práticas para Publicação de Dados na Web (Data on the Web Best Practices) e Boas Práticas para Publicação de Dados Espaciais (Spatial Data on the Web Best Practices) são exemplos de recomendações que estão sendo desenvolvidas para facilitar a vida dos publicadores de dados na Web.

Essa evolução chamou a atenção da ONU, que, em 2014, criou o “Grupo Revolução dos Dados” (Data Revolution Group). No princípio, esse grupo reconheceu iniciativas relacionadas a dados na Web dos setores público e privado, de organizações internacionais e da sociedade civil e analisou a revolução dos dados para a Agenda de Desenvolvimento pós-2015. O tema foi discutido particularmente em relação a: desenvolvimento da capacidade e modernização dos sistemas estatísticos; big data; dados abertos; Proteção da privacidade; indicadores de desenvolvimento sustentável; dados para a formulação e implementação de políticas públicas; dados para a prestação de contas (accountability); e dados para alerta precoce e resposta de emergência.

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Segundo o relatório Independent Expert Advisory Group – IEAG gerado pelo Grupo Revolução dos Dados, “os dados são a alma de tomada de decisão e matéria-prima para prestação de contas (accountability). Sem dados de alta qualidade para fornecer as informações corretas sobre as coisas certas no momento certo; concepção, acompanhamento e avaliação de políticas eficazes tornam-se quase impossível.”

Esse mesmo grupo lançou dois desafios: o desafio da invisibilidade, que aborda as lacunas descobertas a partir dos dados e quando as descobrimos; e o desafio da desigualdade, que mostra as lacunas entre aquelas pessoas que têm as informações, aquelas que não as têm e o que precisam saber para as tomadas de decisão. Assim, o relatório IEAG faz recomendações específicas sobre como lidar com esses desafios, exigindo um esforço liderado pela ONU para mobilizar a revolução de dados para o desenvolvimento sustentável.

Além disso, o relatório recomenda fomentar e promover a inovação para preencher lacunas de dados. As novas tecnologias oferecem novas oportunidades para melhorar os dados, se usadas para o bem comum. O IEAG propõe um programa para a experimentação com a forma tradicional e novas fontes de dados (incluindo big data) podem ser reunidas para melhores e mais rápidos processamentos de dados sobre o desenvolvimento sustentável, o desenvolvimento de novas infraestruturas para o desenvolvimento e partilha de dados (como “estatísticas mundiais da nuvem” (world statistics cloud), apoiando inovações que melhorem a qualidade e reduzam os custos de produção de dados públicos.

Também sugere-se mobilizar recursos para superar as desigualdades entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e entre as pessoas com escassez de dados e aquelas que possuem muitos dados. O grupo sublinha a necessidade de aumentar o financiamento e os recursos usados tanto para o desenvolvimento nacional quanto alfabetização de dados.

Finalmente, o relatório enfatiza a necessidade de aprimorar liderança e coordenação dessa temática de modo a permitir que a revolução dos dados desempenhe plenamente o seu papel na realização do desenvolvimento sustentável. O grupo propõe um esforço global para melhorar a cooperação entre os antigos e novos produtores de dados, garantir o engajamento dos usuários de dados, e desenvolver normas éticas, legais e estatísticas globais para melhorar a qualidade dos dados e proteger as pessoas contra abusos em um ecossistema de dados que muda rapidamente.