Bruno Valim Magalhães

Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UnB.

 

Carl von Clausewitz afirmou, no começo do século XIX, que a guerra nunca é um ato isolado, obra de um instante, que se deflagraria subitamente. Aliam-se a essa avaliação alguns dos maiores efeitos do final da II Guerra Mundial, que ceifaram a supremacia europeia ocidental na política internacional. A queda inequívoca dessa predominância gerou uma mudança da ordem internacional, com o que duas superpotências (Estados Unidos e Rússia) começaram a se consolidar, tanto a oriente como a ocidente das fronteiras europeias. Um longo ciclo histórico se esgotava e um novo surgia. Porém, quando há mudanças de regime que desestabilizam uma ordem hegemônica vigente ou que substituem um ciclo decadente, novos atores que buscam prestígio e poder ascendem e engendram atritos ao desequilibrar a balança de poder, podendo, eventualmente, culminar em guerras decorrentes dessas fricções.

Quando concentramos um questionamento analítico apenas naquelas duas superpotências, podemos resgatar uma sagaz observação de Alexis de Tocqueville no longínquo século XIX: existiriam duas grandes nações aparentemente clamadas por alguma “Providência” a ter em suas mãos o destino do mundo: Rússia e Estados Unidos. Esta “Providência” de Tocqueville seria trazida à luz logo após o final daquela conjuntura da II Guerra, com o gradual estabelecimento de uma condição mundial nova: a Guerra Fria. Por mais de 40 anos o mundo teria vivido nessa condição.

No que é tido como o final desse ciclo, muitos daqueles que viram a queda do Muro de Berlim e, dois anos depois, a bandeira soviética sendo arriada do Kremlin, acreditaram numa Europa livre e unida e na vitória do lado ocidental dessa Guerra, sendo os Estados Unidos o fiador de uma nova ordem mundial. Selando para alguns, como Eric Hobsbawm em Era dos Extremos, o fim do próprio século XX. Assim, uma nova ordem mundial não parecia mais uma aspiração distante, mas seria algo tangível. O que não faz tanta lógica se tomarmos o pensamento histórico apresentado logo na introdução. Se uma guerra não é obra de um instante e os ciclos históricos tendem à longa duração, como dois eventos tão particulares poderiam encerrar de imediato a Guerra Fria (e o século XX)?

Da mesma forma que John Gaddis (em We Know Now, 1997) analisou a Guerra Fria como tendo conhecido períodos de maior e menor intensidade de cooperação e discórdia, de ‘guerra fria fria’ e de ‘guerra fria quente’, teríamos condições de pensar os últimos 25 anos como apenas um hiato mais frio? Afinal, muitas das características da Guerra Fria ainda estão presentes na própria Europa, o antigo epicentro dessa Guerra. A Rússia continua a manter seu arsenal nuclear, maior numericamente do que os dos Estados Unidos, gastando, em 2013, em elementos militares e em defesa, uma porção maior de seu PIB do que os EUA pela primeira vez em décadas. Em contrapartida, os Estados Unidos ainda injetam bilhões de dólares para modernizar as armas que Barack Obama se comprometeu a abolir, e os países da União Europeia cada vez mais se mostram incapazes de serem tecnicamente autônomos em relação à OTAN. Com isso, a Aliança Atlântica não só não desapareceu como se alastrou pela Europa Oriental até as fronteiras russas, cooperou com a Ucrânia e hoje se aproxima da Moldávia, dando sobrevida à maior das instituições da Guerra Fria.

Além disso, há pouco mais de 25 anos daquele suposto fim de ciclo, a Rússia de Vladmir Putin se mostra mais agressiva do que a URSS em desconstrução de Mikhail Gorbachev e a Rússia em escombros de Boris Yeltsin. A Moscou de Putin-Medvedev colocou seus soldados em solo ucraniano e georgiano e ainda ameaça os países bálticos. A política energética russa amarra as mãos de muitos europeus do Leste e da própria Alemanha, sob a sombra dos gasodutos, especialmente os Nord e South Streams. A Hungria, um dos antigos membros do Pacto de Varsóvia, desliza em direção ao autoritarismo e vem se afastando de Bruxelas em direção a Moscou. Somem-se a isso as especulações sobre a responsabilidade russa pela derrubada do voo MH17, em 2014, na Ucrânia.

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Tais elementos não contribuem para sustentar o argumento “Europa livre e unida”, um dos elementos mais centrais do final da Guerra Fria. Isso tudo fica à parte do posicionamento russo-ocidental nos confrontos sírios, que já são tidos por alguns como proxy war entre EUA e Rússia, os quais, apesar de terem tentado cooperar sobre esse fato, apoiam fronts distintos nos embates com seu alvo comum: o Estado Islâmico.

Na nova ordem mundial, mantida sob os auspícios dos Estados Unidos, percebe-se que persiste muito da antiga ordem da Guerra Fria, porque ela não dizia respeito apenas a um confronto entre inimigos ideológicos. A Guerra Fria dizia muito mais sobre um confronto entre dois países que aspiravam, ultima ratio, a manter uma hegemonia idealizada e que buscavam, quotidianamente, manter uma balança de equilíbrio de poder. Quando a União Soviética desqualificou-se da competição, a balança de poder pendeu para o lado americano, deixando o mundo sob a unipolaridade. Esfriou-se o conflito entre os dois porque Moscou não possuía a capacidade de reação para reequilibrar. Mas a Rússia, parcialmente recuperada sob Putin, continua a manter o foco sobre suas fronteiras e sobre essa balança. Washington, por outro lado, não alterou essencialmente a sua atitude em relação a Moscou, apesar de algumas iniciativas de cooperação. O que, em última análise, poderia indicar que a Guerra Fria nunca chegou propriamente a falecer, embora fosse esse o trajeto.

Assim, enquanto Gorbachev afirmou, em 2014, nas comemorações da queda do Muro, em Berlim, que “o mundo está à beira de uma nova Guerra Fria”, outros argumentam que ela já teria começado, remetendo-se à crise ucraniana. Para Medvedev, “estamos nos movendo rapidamente para um período de uma nova Guerra Fria” e que “às vezes não sabe se estamos vivendo em 2016 ou em 1962”, mencionando a guerra na Síria. Tais tomadores de decisão podem estar se referindo mais a uma balança que não chegou a morrer com os eventos que teriam marcado “o fim” da Guerra Fria. No horizonte concreto do sistema internacional, talvez se vislumbre mais o renascimento da Guerra Fria do que a “Europa livre e unida” ou uma nova ordem mundial afiançada pelos Estados Unidos.

Nem a Guerra Fria e nem o século XX morreram completamente. Muitos de seus elementos passaram para o século XXI, incorporando-se aos ciclos históricos em que vivemos. Da mesma forma que guerras não começam com atos isolados e não são obras de instantes, elas não terminam dessa forma. Em vista disso, mesmo que a Guerra Fria possa estar efetivamente morrendo desde 1989 e passando apenas por um último soluço conflituoso — já que as condições e as conjunturas globais de 2016 não são as mesmas de 1962 –, os elementos centrais da Guerra Fria podem não ter desaparecido.