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Quando o cinema tematiza a luta por reconhecimento


Em muitas pessoas já é um descaramento dizerem Eu” – foram as palavras de Adorno e Horkheimer ao realizarem um diagnóstico de época em Minima moralia. Segundo eles, a indústria cultural levaria a uma padronização crescente das consciências das pessoas e os indivíduos só passariam a ser tolerados no convívio das sociedades capitalistas na medida em que suas próprias identidades fossem deixadas de lado. Seria mesmo?

O fato é que precisamos capturar e orquestrar as diversas vozes provenientes deste mundo cada vez mais conectado e fluído. As condições de luta por reconhecimento das múltiplas particularidades identitárias ainda permeiam as diversas instituições sociais do mundo moderno e se fazem sentir por todas as partes.

Não poderia ser diferente na produção cinematográfica contemporânea.

Recentemente, sob direção de Houda Benyamina, a Netflix lançou o longa-metragem Divines. No drama, a protagonista Dounia – interpretado por Oulaya Amamra –, é uma jovem imigrante que mora na periferia francesa com sua mãe. O fato curioso do enredo não se limita apenas à descrição do estado de vida deplorável de que as populações deslocadas usufruem na famosa pátria da liberdade, da igualdade e da fraternidade, mas sim o papel do crime na contestação da ordem social estabelecida.

No script, Dounia se associa à traficante Rebecca (Jisca Kalvanda) na tentativa de conquistar um papel social de destaque. Ela não se contenta com profissões que, a seu ver, exigem maior subserviência e aceitação de suas condições fáticas de inferioridade, tais como cargos ocupacionais secundários que entre as jovens pouco “ilustradas” possuem baixa remuneração e estima social. O crime aparece assim como resultado de um sentimento de desrespeito vivido por Dounia, que não se sente valorizada e é compelida a dar um novo passo rumo à “diferenciação”.

A protagonista busca expor sua vontade singular na forma cifrada do delito, mas o mais interessante é observar que a provocação moral da ‘criminosa’ consiste no seu desejo de ampliar suas dimensões de igualdade material de chances de vida, inserindo-se numa luta moral pelo reconhecimento de sua unicidade biográfica perante todos os demais sujeitos. Dounia somente representa uma geração de indivíduos que buscam constantemente – por meio de transgressões – os objetivos identitários de serem “reconciliados consigo mesmos” e, acima de tudo, estimados por suas comunidades de valor. Inserem-se, portanto, na expectativa de serem reconhecidos como seres individuados e autônomos.

A experiência da violação – além de desvelar as bases normativas das reivindicações dos sujeitos pela autorrealização pessoal –, também serve para iluminar as desigualdades econômicas e promover a reflexão acerca dos princípios de justiça, da igualdade e da diferença. Conceitos esses que são centrais para uma boa análise sociológica e aplicabilidade prática.

Os pressupostos e os dilemas identitários também estão presentes em outros enredos atuais.

Les Cowboys (2016), dirigido por Thomas Bidegain, conta a história de Alain (François Damiens) e de seu filho Kid (Finnegan Oldfield) no esforço para encontrar sua filha e irmã Kelly (Iliana Zabeth), desaparecida após uma festa country na região interiorana da França. Apesar de conter fragmentos estereotipados da cultura islâmica e cenas pouco fiéis na retratação de países como o Paquistão – algo pesaroso para um filme direcionado a um público mais crítico –, é interessante ressaltar que os protagonistas constroem suas identidades e projetos de vida diante das adversidades e dos conflitos desencadeados por seus contextos de vida, seus percursos e interações com o “outro” – visto na trama como “o desconhecido”.

O enredo foca-se num processo de formação identitária mais abrangente, no qual após a exteriorização do “Eu” e seu contato conflitivo com o “outro”, o retorno a si mesmo é mais completo e totalizante. A experiência da intersubjetividade está presente em todo o filme e conforme esse se desenvolve os personagens edificam suas metas, exprimem seus medos e lutam para encontrar Kelly, que na verdade poderíamos compreender como sendo a “objetificação” do desejo incessante em lidar com o “inacabado”. As angústias do pai e do irmão dão-se em meio às indeterminações de suas próprias identidades, e eles as projetam num fim em si mesmo: encontrar Kelly. Instigante, para dizer o mínimo. O modelo da luta aparece como um sinal de reminiscência do propósito seguido pelos protagonistas, e suas identidades e diferenciações correspondem às relações de reconhecimento gradualmente escalonadas no enredo.

Já em A garota desconhecida, longa dirigido pelos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, a temática do reconhecimento aparece em diversos momentos, sendo principalmente evidente no papel de Lucas (Thomas Doret) e na personagem assassinada e “desconhecida”. Lucas é um estudante de medicina prestes a se formar e sua personalidade problemática resulta de um vasto histórico de maus-tratos cometidos pelo pai e de um núcleo familiar desestruturado. A natureza afetiva do personagem sinaliza traços nítidos de sentimentos autodepreciativos e falta de confiança em si mesmo. Sua “segurança” é facilmente abalada quando questionado por Jenny (Adele Haenel) – médica temporária na clínica onde é estagiário –, o que culmina no abandono do curso de medicina.

No filme, a esfera das relações primárias se mostra particularmente importante, denunciando também que o domínio incompleto dessa dimensão abala a personalidade dos sujeitos em causa, suas formas de conceber o “autorespeito” e levam à conformação de identidades deformadas. Em suma, além de serem interiorizadas de modo negativo pelos personagens – Lucas e a garota “desconhecida” –, tais emoções também passam a desestruturar seus respectivos parâmetros de sociabilidade e a corroer os pilares de sustentação que pautam suas reivindicações pessoais por estima.

A garota morta e desconhecida do enredo – imigrante ilegal do Gabão – também traz à tona outras questões sensíveis como a prostituição, a degradação do corpo, a misoginia e o racismo. Todos esses elementos inferiorizadores aparecem como cenários de dominação que restringem drasticamente o acesso às relações sociais desejáveis, minando ainda a constituição da identidade dos sujeitos, a solidariedade afetuosa e o próprio processo de integração social. A crítica a essas categorizações e qualificações negativas é clara e a dinâmica da “luta” aparece no retorno de Lucas ao curso de medicina, na concretização da missão de Jenny ao descobrir o “nome” da garota assassinada (apesar das ameaças), e finalmente, no relato cabal sobre as tentativas da imigrante do Gabão de melhorar suas condições degradantes de vida. Expõe-se, assim, o mundo obscuro da clandestinidade, das estruturas assimétricas de poderes familiares e sociais, da estigmatização do “outro”, da degradação física e moral e das violações sistêmicas.

Por fim, temos Fátima, filme dirigido por Phillippe Faucon. No enredo, a protagonista – interpretada por Soria Zerival – é um exemplo da luta cotidiana das mulheres (pobres e muçulmanas) por reconhecimento de suas competências e capacidades nas várias dimensões de vida, tais como a família, o direito e a sociedade. Empregada doméstica (debilitada após um acidente no trabalho), Fátima se mostra veementemente desrespeitada quando humilhada por sua filha mais nova Souad, numa discussão por não compreender a língua francesa e por ser julgada como ‘inferior’, devido sua profissão pouco estimada. Num discurso comovente, a protagonista relata:

“Naquele dia, eu tive medo porque vi o respeito que ensinei a você cair por terra. Olha, sua mãe tem 44 anos. Usa roupas de supermercado de cinco euros a peça. Não ganha o suficiente para gastar mais. Seu perfume também vem de lá. Ela usa véu, mas não se incomoda se alguém vem falar com ela. Essa mulher e outras como ela precisavam da Fátima quando a Fátima estava bem. Tal mulher não pode sair para trabalhar sem uma Fátima. Comprar para si perfumes e belas roupas, sem uma Fátima. Ganhar seu salário e seu futuro, sua bela aposentadoria, sem uma Fátima. A cada dia, tal mulher confia as chaves, a casa e seus filhos a uma Fátima. Ela visita suas amigas, faz compras, graças a uma Fátima. À noite ela volta para sua casa de cinco quartos e dois banheiros que Fátima limpou das 8h até às 18h. A casa está limpa e arrumada. À noite, Fátima volta para sua casa e tudo a espera. A limpeza, a cozinha, suas filhas. Um outro turno recomeça. Por isso, um dia Fátima não consegue parar de pé. Não fique brava, pois nesse caso, ou um parente está doente ou um filho está descontrolado. E desta vez, tenha orgulho, tenha orgulho das Fátimas que cuidam das casas das mulheres que trabalham”.

A trama destaca os vários momentos de superação conduzidos por Fátima para educar as filhas e dar-lhes às oportunidades de vida a que nunca tivera acesso. Seus projetos de vida se materializam, portanto, no “sucesso” de suas filhas e na satisfação de seus desejos individuais. Além disso, o roteiro também destaca a essencialidade da comunicação para o desenvolvimento da identidade das personagens – tanto no âmbito conflitivo da família como também na inserção “bem sucedida” de suas comunidades sociais. Atribuem-se, assim, às lacunas da comunicação e aos seus déficits as formas patológicas de associação e entendimento. O filme é um belo exemplo da busca incessante de uma classe de pessoas moralmente imputáveis, ansiosas por reconhecimento e aceitação.

Digamos que é mesmo difícil vislumbrar o conformismo social e a alienação identitária dos sujeitos, como sugeriram, em princípio, Adorno e Horkheimer quando analisavam as consequências da indústria cultural para a vida das sociedades modernas. Cabe-nos lembrar que apesar das inúmeras tentativas de reificação das identidades individuais e coletivas, e de uma pretendida e fracassada “harmonização e homogeneização sociais”, ainda existem fôlegos de luta, que nada mais representam do que conflitos sociais orientados em prol da ampliação dos conteúdos materiais de vida e do restabelecimento das condições de reconhecimento.

O cinema contemporâneo não poderia ser mais satisfatório ao abordar essa temática tão importante para a sociologia e a filosofia política.

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Vanessa Capistrano

sobre Vanessa Capistrano

Doutoranda pelo PPGRI San Tiago Dantas. Mestre em Ciências Sociais e bacharel em Relações Internacionais pela UNESP/Marília-SP. É membro do Grupo de Pesquisa em Relações Internacionais e Política Exterior do Brasil.

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