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Impeachment na Coreia do Sul questiona relações entre governo e grandes conglomerados


Alexandre San Martim Portes

Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina e mestrando em Economia, Direito e Políticas Públicas pela Universidade Leuphana Lüneburg.


No dia 10 de março de 2017, foi aprovado o impeachment da Presidente da Coreia do Sul, Park Geun-Hye, afastando-a definitivamente do cargo. A aprovação veio sem surpresas, e foi o resultado de uma série de denúncias que envolviam não somente a vida pessoal de Park, mas também as relações entre o governo e os conglomerados sul-coreanos. Acusada de corrupção e tráfico de influência, a presidente viu sua aprovação despencar à medida que as investigações se aprofundavam.

A personagem central de todos os recentes escândalos, todavia, não foi a presidente, mas sim Choi Soon-Sil, sua amiga e conselheira. Choi possuía grande influência dentro do governo de Park, afetando desde discursos presidenciais até orçamentos nacionais e condutas políticas com a Coreia do Norte. Dado o status da relação entre as duas, Choi foi denominada pela mídia de “Rasputin coreana”, já que ela detinha muito controle sobre a presidência e mantinha laços “religiosos” com a família de Park. Além das influências no governo, Choi criou empresas fantasmas, com as quais ela obtinha recursos de conglomerados sul-coreanos em acordos de troca de favores.

 

Reações antagônicas e polarização política

Conforme os escândalos de corrupção foram sendo expostos, parte da população sul-coreana saiu às ruas em forma de protesto. A praça Gwanghwamun, localizada em frente à sede da presidência e palco tradicional de manifestações políticas, foi lotada com milhares de protestantes, que pediam a saída de Park. Antes mesmo dos escândalos, a popularidade da presidente não estava muito alta, porém ela caiu rapidamente para apenas 4% de aprovação já em novembro, quando as investigações vieram a público. Apesar da maioria claramente opor-se ao governo de Park, um pequeno grupo se manteve leal a ela, o que causou tumulto após a aprovação do impeachment.

Esse apoio pode ser explicado por dois motivos distintos.

O primeiro baseia-se na história da própria presidente. Por ser filha do ditador Park Chung-Hee, ela já era bastante conhecida pela população. Seu pai é considerado por muitos como o responsável pelo rápido desenvolvimento econômico ocorrido nos anos 1960 e 1970 na Coreia do Sul, possuindo uma popularidade bastante controversa, já que esse desenvolvimento esteve aliado à opressão e ao autoritarismo. De certa forma, muitos esperavam que Park Geun-Hye também liderasse projetos de desenvolvimento que estimulassem novamente a economia a atingir taxas extraordinárias de crescimento.

O outro motivo está na grande polarização política sul-coreana. As disputas eleitorais se dão normalmente entre dois grupos: os conservadores, liderados pelo partido Saenuri, e os liberais, atualmente conduzidos pelo partido Minjoo. Há muitos fieis em ambos os lados e os conflitos ideológicos muitas vezes tomam proporções violentas. O partido de Park, o Saenuri, além de enfraquecido com as eleições parlamentares de 2016, dividiu-se durante o processo de impeachment, quando 29 políticos se dissociaram e prometeram criar um novo partido de direita.

 

Condução econômica e acusações contra a Samsung

Por mais que os escândalos das relações entre Park e Choi fossem suficientes para o impeachment, o desempenho da economia sul-coreana foi, para muitos, insatisfatório. Os ideais de desenvolvimento não foram atingidos e, com o esfriamento da economia chinesa, a Coreia do Sul passou a exportar menos e a crescer a taxas reduzidas. Aliado a isso, as investigações de corrupção das empresas do país contribuíram negativamente para o cenário atual.

O tráfico de influência realizado pela Presidente Park em favor de Choi envolveu o maior conglomerado do país, a Samsung. O vice-presidente da empresa, Lee Jae-Yong, foi acusado de doar mais de 25 milhões de dólares a fundações de Choi, em troca do apoio do governo na realização de fusões empresariais. Lee tem comandado a empresa desde 2014, quando seu pai sofreu um ataque cardíaco. Como a Samsung é um grupo muito grande, fusões entre partes específicas da empresa dariam mais controle a Lee e a sua família sobre todo o conglomerado.

É importante destacar qual é a relação entre os grupos empresarias e o governo na Coreia do Sul. Os famosos conglomerados do país, chamados de chaebols, são fruto das políticas desenvolvimentistas de Park Chung-Hee, que se pautavam basicamente na formação de grandes grupos de empresas em diversos ramos e no oferecimento de benefícios fiscais e econômicos a elas, exigindo em troca alta performance comercial. As empresas que surgiram nesse período são conhecidas mundialmente, como a LG, a KIA, a Hyundai e a Samsung. Esse modelo acabou criando empresas que detém não só uma grande parcela da produção sul-coreana, mas também um grande poder político. Por isso, as relações entre governo e empresas foi sempre muito próximo, a fim de enquadrar objetivos e agendas.

 

O futuro do país pós-impeachment

Com o impeachment da Presidente Park e a atual prisão do presidente da Samsung, muitos questionamentos sobre o futuro da Coreia do Sul emergem. No campo político, primeiramente, será necessário aguardar as eleições, que devem ocorrer dentro de 60 dias, prazo previsto pela legislação do país. O primeiro ministro Hwang Kyo-Ahn, que já estava governando o país desde o afastamento de Park, continuará como presidente até que o novo ou nova presidente tome posse.

O futuro político do país depende, então, de quem será eleito. Inicialmente havia rumores de uma possível candidatura de Ban Ki-Moon, ex-secretário geral das Nações Unidas. Acreditava-se que ele seria um forte nome para concorrer ao lado dos conservadores, talvez até em um possível novo partido criado pelos antigos membros do Saenuri. Contudo, ele já declarou que não concorrerá nessas eleições. Um outro nome importante é o do liberal Moon Jae-In, que perdeu as eleições de 2012 para Park. Esse seria potencialmente um bom momento para o partido Minjoo ganhar apoio e retomar o poder depois de duas derrotas. Questões importantes, como as relações entre Coreia do Sul e Norte, dependem muito do perfil do próximo presidente.

Outra questão relevante é o futuro da economia coreana e dos chaebols. Por mais que a Coreia do Sul tenha conseguido realizar um desenvolvimento econômico surpreendente nos últimos 50 anos, há muitas críticas sobre o modelo mantido de extrema concentração produtiva. Por exemplo, estima-se que a produção da Samsung represente um quinto do Produto Interno Bruto sul-coreano. Esse tipo de estrutura sufoca pequenas e médias empresas que poderiam trazer criatividade e dinamismo à economia. Além disso, empresas tão grandes precisam de atenções especiais. Políticas que prejudiquem o faturamento de um chaebol comprometem também toda a economia do país. Dessa forma, torna-se imprescindível que o governo e os chaebols trabalhem juntos.

Concluindo, a Coreia do Sul está passando atualmente por abalos muitos fortes na política e na economia. A participação popular no processo de impeachment demonstra que os sul-coreanos estão insatisfeitos com as relações corruptas entre empresas e governo, o que poderá refletir em reformas importantes no futuro. O cenário mais provável, contudo, é que essas relações sejam mantidas, já que o poder político empresarial, nesse caso, é maior que a pressão popular. Espera-se apenas que o escândalo não desestabilize por completo a Samsung, a fim de evitar um completo colapso da economia sul-coreana e de outros conglomerados.

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