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Donald Trump e a contestação da “Ordem Liberal Global”


Donald John Trump assumiu pelo Partido Republicano o posto de 45º Presidente dos Estados Unidos da América em janeiro de 2017. A disputa eleitoral contra a Democrata Hillary Clinton evidenciou um EUA fragmentado e disposto a revisar os alicerces fundamentais de suas políticas domésticas e internacionais executadas ao longo das últimas décadas. Desde então, tornaram-se recorrentes análises realçando a suposta singularidade representada pela vitória de Trump, que estaria disposto a reformar e enfraquecer a “Ordem Liberal Global”, à revelia de qualquer tradição política da história do país.

Erigida ao longo dos últimos 70 anos sob protagonismo norte-americano, o ordenamento internacional contemporâneo foi construído pelos EUA claramente de maneira a projetar a essência de seus valores liberais no restante do mundo, principalmente em termos de defesa dos direitos humanos e da democracia. No entanto, a percepção de que a orientação da política externa de Trump rumo ao questionamento dessa “Ordem Liberal Global” e do próprio papel de liderança global dos EUA seria uma inflexão vinculada a um projeto pessoal de Trump é tão errônea quanto a que afirma que seus valores nacionalistas e isolacionistas representam uma completa inflexão na tradição política norte-americana.

A política externa norte-americana, de acordo com Walter Russel Mead,  vem sendo guiada desde o fim da Segunda Guerra Mundial pelas tradições Hamiltonianas e Wilsonianas, que advogaram pelo crescente protagonismo dos EUA não somente na consolidação de regimes internacionais que edificassem a economia global, como também na promoção dos direitos humanos, da governança democrática e do Estado de Direito. Por outro lado, a orientação que alçou Trump à presidência é uma herança do fundador do Partido Democrata e sétimo Presidente dos EUA, Andrew Jackson. Na tradição Jacksoniana, defende-se uma maior introspecção política, de modo a promover o bem-estar econômico doméstico em detrimento de uma inserção internacional universalista. Essa tradição seria inerente ao próprio nascimento dos EUA enquanto Estado Moderno e ao isolacionismo perante os assuntos globais que perdurou na orientação política do país até a Segunda Guerra Mundial.

Os efeitos práticos da tradição política Jacksoniana impelem à utilização de medidas populistas, que consequentemente incentivam políticas protecionistas e nacionalistas. No entanto, apesar de as medidas de Trump representarem rupturas com a chamada “Ordem Liberal Global”, os EUA vêm, de fato, ao longo tanto do governo Bush filho quanto de Obama, adotando posicionamentos e políticas internacionais com características extremamente controversas e contraditórias à “Ordem Liberal Global”, a que Trump apenas estaria dando continuidade.

Importantes autores, acadêmicos e pesquisadores vêm nas últimas décadas analisando se a chamada “Ordem Liberal Global” estaria caminhando rumo ao declínio, tendo em vista a ascensão dos países em desenvolvimento e sua crescente participação na revisão de princípios fundamentais dos regimes internacionais. No entanto, o que muitos ignoraram nesse debate foi a possibilidade de os próprios norte-americanos exercerem o protagonismo na revisão e contestação à essa “Ordem Liberal Global”.

Os alicerces da liderança do país perante a sociedade internacional vêm sofrendo um processo de erosão contínua não somente no âmbito internacional, como também no interior da sociedade norte-americana. Com efeito, as dificuldades dos EUA a se ajustarem às características da multipolaridade contemporânea são cada vez mais explícitas em temas importantes da “Ordem Liberal Global”. Desse modo, o argumento central do presente artigo é que o elemento fundamental responsável por erodir as bases da ordem liberal internacional foi a “Guerra Global ao Terror”.

Empreendida após o 11 de Setembro, o combate ao terrorismo em nível global teve implicações importantes no tocante ao reordenamento do “contrato social” estabelecido pelas sociedades ao redor do globo, desde as democráticas, como EUA e França, até as autoritárias, como Rússia e China. A “Guerra Global ao Terror” redefiniu a correlação de responsabilidades estabelecidas entre o Estado e os Indivíduos, atribuindo maior peso ao Estado na promoção da segurança de seus nacionais, enquanto aos indivíduos restou aceitar tacitamente a redução substancial de sua liberdade frente à suposta ameaça global representada pelo terrorismo.

Desde a gestação e implementação da “Guerra Global ao Terror”, por Bush filho, os EUA vêm enfraquecendo a chamada “Ordem Liberal Global”, o que ficou explícito já na subsequente invasão unilateral ao Iraque em 2003, à revelia do Sistema ONU. Barack Obama, por sua vez, ascendeu à Presidência ostentando um controverso Prêmio Nobel da Paz e muitas promessas com relação a mudanças no engajamento norte-americano frente ao terrorismo. Contudo, especialistas apontam que sua gestão foi pautada por um eixo de continuidade bastante explícito com relação aos termos da “Guerra Global ao Terror”.

Princípios consagrados como pilares fundamentais da Ordem Liberal também vem sendo sobrepujados em nome do combate ao terror desde o início da década passada. Recorrentes são os abusos aos direitos humanos vinculados ao combate ao terrorismo nas últimas décadas, explícitos por exemplo na utilização massiva de tortura e de prisões desvinculadas do devido processo legal em Guantánamo.

Além disso, a adesão às políticas de combate e prevenção ao terrorismo vem sendo um fator mais importante do que a promoção e o aprofundamento da democracia na seleção dos parceiros regionais dos EUA, como demonstra o apoio norte-americano a governos autoritários e não democráticos no continente africano, como Somália, Quênia, Etiópia, Uganda, Djibouti e Burundi. Esses países, sob os auspícios do Comando dos EUA para a África (AFRICOM), recebem treinamento militar e financiamento de modo a fomentar suas estruturas de combate ao terrorismo. O resultado na prática é a consolidação das elites que detém o poder nesses países e a perseguição a grupos políticos de oposição, jornalistas e ativistas, sob o pretexto de serem “terroristas”.

A crescente utilização de drones no combate ao terrorismo também se consolidou como um tema controverso ao longo da última década, principalmente na gestão Obama à frente da Casa Branca. A crescente utilização desse tipo de aparato bélico, além de resultar em centenas de mortes de civis, também contribuiu para abalar as estruturas da ordem democrática norte-americana, devido à hipertrofia do poder do Executivo na utilização desse tipo de armamento, em detrimento do Legislativo, que sequer é consultado nesses casos. Doravante, Obama tem uma importante parcela de culpa por estabelecer os precedentes que levam hoje a concentração de poder nas mãos de Trump em termos de utilização de drones no combate ao terrorismo.

Outro aspecto conjuntural que salienta o papel da “Guerra Global ao Terror” na ruptura com a “Ordem Liberal Global” é o recorde histórico no número de populações deslocadas mundialmente sob a condição de refugiados e deslocados internos. A política externa norte-americana carrega grande parcela de culpa no que se refere a esses fluxos populacionais, que fogem de conflitos internos e do terrorismo em países como Iraque e Afeganistão. As intervenções dos EUA nesses países foram fundamentais não somente na radicalização de boa parte de grupos nacionalistas e fundamentalistas da região, como também geraram um vácuo de poder que criou as condições para a ascensão e fortalecimento de grupos terroristas, como evidencia a trajetória do Estado Islâmico.

Nesse sentido, reitera-se que Barack Obama foi o responsável por números recordes de deportações de imigrantes nos EUA, totalizando 2,5 milhões entre 2009 e 2015. Esses dados chamam a atenção quando justapostos às críticas que, recorrentemente, Trump vem recebendo por sua política anti-imigração, a qual, quando analisada friamente, apenas amplia o escopo delineado por seu antecessor.

Talvez o apelo midiático imediato e global vinculados à figura caricata de Trump contribuam para a percepção de que ele seria um divisor de águas no âmbito da política doméstica dos EUA, com capacidade de alterar substancialmente também a ordem internacional contemporânea. No entanto, o que se evidencia é o fato de Trump ter recorrido a tradições políticas anacrônicas gestadas no cerne de um background cultural conservador e individualista que pauta importantes parcelas da sociedade norte-americana para alavancar seu projeto próprio de poder. Desse modo, do ponto de vista da inserção internacional dos EUA, suas políticas apenas reafirmam uma trajetória de continuidade no esfacelamento da “Ordem Liberal Global”, já pavimentadas ao longo do governo Bush filho e Obama, por meio da “Guerra Global ao Terror” e seu legado catastrófico.

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André Pini

sobre André Pini

Doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Mestre em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), e Especialista em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Áreas de Interesse: Defesa e Segurança, Terrorismo e Teorias de Relações Internacionais

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