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As raízes “jacksonianas” e o significado sociológico do trumpismo


A tradição política de Trump deita raízes no que Walter Russel Mead denomina “Jacksonianismo”, por alusão ao sétimo presidente estadunidense, Andrew Jackson. O tema foi tratado por André Pini em artigo dedicado a analisar as orientações do novo presidente norte-americano, publicado neste site.

A tradição política de Trump deita raízes no que Walter Russel Mead denomina “Jacksonianismo”, por alusão ao sétimo presidente estadunidense, Andrew Jackson. O tema foi tratado por André Pini em artigo dedicado a analisar as orientações do novo presidente norte-americano, publicado neste site.

Os Jacksonianos abraçariam um projeto populista e nacionalista de poder com o foco no bem-estar do cidadão branco de classe média, os quais defenderiam, acima de tudo, a dignidade e os valores do cidadão americano. Para eles, ideia de ameaça interna e externa é fundamental para legitimar governos conservadores, que estejam interessados em garantir os direitos e interesses do tradicional cidadão americano “médio”. As elites são vistas desconfiadamente por eles, e os imigrantes, sobretudo, uma torrente de ameaças que colocariam em risco a dissolução do “U.S essential character”.

O “make american great again” anunciado repetidamente por Trump durante a campanha ganhou aderência nestes eleitores. Distintamente dos “Jefersonianos minimalistas”, termo também cunhado por Russel, que defenderiam uma política externa low-profile sob a prerrogativa de redução de riscos em política externa, criando espaços para o crescimento econômico sem cortes drásticos. Os Jacksonianos, em contrapartida, ressaltam a importância de uma política externa mais agressiva que coloque os EUA no centro e seja capaz de conservar a posição dos cidadão que carregam o “U.S essential character”, e que não querem ter seus valores atacados. É nesta linha argumentativa que Russel destaca o papel visceral das identidades culturais e como ela tem influenciado historicamente as regras políticas.

Com efeito, o acúmulo migratório deflagrado no país, que conta ao menos com 30 milhões de imigrantes (legais e ilegais), pintou ao longo dos anos um extenso quadro étnico que busca reconhecimento identitário que ultrapasse o peso propiciado pelo mercado. Sob a ótica do cidadão jacksoniano, a percepção de uma colcha de retalhos étnicos que se apropria cada vez mais do quintal do “U.S essential character”, aguça a sensação de ameaça e contribui com o fortalecimento de laços identitários que tendem a atomizar e fragmentar cada vez mais a sociedade estadunidense.

Portanto, a resposta que denota a percepção ameaçadora das transformações da globalização em território norte-americano ajuda a que se compreenda que o país não está em uníssono, mas fragmentado, dividido. Também aponta para o enfraquecimento dos Democratas, talvez pelo excesso de costuras feitas para unir um país gradualmente diferente do ponto de vista cultural, étnico e ideológico em torno de não responder às mudanças impetradas nos últimos anos.

A forma como se desenrolou a dinâmica de configuração de classes e grupos sociais nos EUA torna-se, do ponto de vista interno, fundamental para compreender as determinações da vitória de Trump. Isso porque o formato da composição sociológica doméstica norte-americana não esteve imune aos impactos das transformações e do movimento da economia internacional. Tal como observa Monica de Bolle, “há muito o que dissecar sobre a integração global e seus efeitos nas economias maduras. Há tanto quanto o que dissecar sobre o advento de novas tecnologias e seus efeitos sobre a indústria tradicional, o encolhimento da economia do rust belt americano, o achatamento da classe média nos EUA”. Para ela, a agenda altamente protecionista e nacionalista alimenta a tônica antiglobalização trumpista.

Adicionalmente, além de dialogar com as mudanças impetradas pela globalização, a ascensão de Trump também aparece como resposta a muitas debilidades criadas pelo próprio país no que se refere à adaptação a um mundo cada vez mais multilateral. Aqui, é pertinente a observação de André Pini, que vê no 11 de setembro um ponto de inflexão dos EUA com a tradição liberal da ordem global.  Para ele, o processo de recusa à ordem liberal já se encontrava na esteira das mudanças na postura internacional dos EUA deflagrada pela escalada da Guerra ao Terror inaugurada com Bush filho, que por mais refutada que tenha sido por Obama, não ultrapassou a retórica, já que o mesmo não deixou de estar em guerra em nenhum dia de seus oito anos de governo e de deportar um número recorde de imigrantes.

A este respeito, cabem algumas observações. A primeira é a de separar a política da economia, entendendo-se a Ordem Liberal Global como circunscrita ao âmbito normativo das relações internacionais e dissociando o componente econômico que dá substância ao modo de acumulação capitalista. Com efeito, do ponto de vista formal e político, as atitudes do país, tomadas no âmbito do sistema internacional, seja na refutação da aderência às normas internacionais, seja na negação de práticas multilaterais em detrimento das relações bilaterais, expressaram posturas mais isolacionistas afrontando o ideário de fortalecimento da ordem global. A economia norte-americana continuou em um ritmo crescente de internacionalização, contribuindo para o aprofundamento da divisão internacional do trabalho e, portanto, da intensificação das desigualdades no plano internacional e doméstico. Neste ponto, particularmente, nem Bush e Obama tocaram.

Com efeito, a conclusão de Trump de que as empresas norte-americanas, ao se transnacionalizarem, deslocam ganhos e promovem perdas aos EUA, exigindo que se adotem medidas para trazê-las de volta à terra natal, fora fortemente anunciada durante a campanha e despertou conflitos entre os setores empresariais nacionais. Tal como anunciado em seu primeiro discurso presidencial, “temos de proteger nossas fronteiras da pilhagem de outros países, que estão fabricando nossos produtos, roubando nossas companhias e destruindo nossos empregos”. Portanto, a denúncia antiglobalização afeta justamente o movimento capitalista que molda a economia internacional globalizada, da qual os EUA saíram beneficiados nos últimos 70 anos. A percepção anunciada da ameaça do internacional sobre o nacional e a volta de um nacionalismo populista configuram-se como uma espécie de reação aos constrangimentos do movimento tomado pela economia norte-americana. O apelo à (re)nacionalização da economia norte-americana defronta-se com a própria formatação do movimento internacionalizado da maior economia capitalista do planeta.

Portanto, a compreensão acerca do significado sociológico da ascensão de Trump não pode ignorar o acumulado histórico e político doméstico das tradições políticas dos EUA, ao mesmo tempo em que não pode dissociar o fator globalização e as mudanças inerentes a este processo, encarando-o como uma plataforma de mudanças mais amplas que moldam o pano de fundo sobre o qual se ergue o discurso altamente protecionista, nacionalista e antiglobalização de Trump. Se em outro momento os EUA eram alvo de manifestações e contestações antiglobalização que passava necessariamente por parte significativa da esquerda, a ironia está no fato de que é exatamente sob as bandeiras da direita conservadora estadunidense ancorada em uma tradição política de cunho populista e nacionalista, que o postulado antiglobalização voltou a ganhar lugar.

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Sara Toledo

sobre Sara Toledo

Mestre e doutoranda em Relações Internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas. Possui licenciatura e bacharelado em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (FSA). Atualmente, pesquisa a relação entre Partidos Políticos e Política Externa no Brasil (1995-2010). Atua e tem interesse nas seguintes áreas : Política Externa Latino-Americana, Integração Regional e Relações Bilaterais entre os países sul-americanos.

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