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A era dos extremos e da imprevisibilidade


A ação do governo Trump de lançar dezenas de mísseis contra alvos na Síria está cercada de dúvidas e significados.

A primeira questão a ser levantada diz respeito ao ato em si: trata-se do primeiro ataque direito do governo americano contra forças oficiais sírias. Donald Trump manda uma mensagem clara: ao contrário de Obama, não atuará por meio de blefes. O mandatário anterior havia ameaçado intervir diretamente no conflito caso fosse comprovado o uso de armas químicas; tanto rebeldes quanto o governo lançaram mão desse tipo de armamento e o governo americano hesitou. Nesse momento o governo russo percebeu a chance de aumentar sua influência na região e escalou sua participação contra grupos rebeldes e o Estado Islâmico, além de apoiar diretamente o presidente Bashar Al-Assad.

Se antes indagava-se um possível isolacionismo dos Estados Unidos no governo Trump, essa hipótese perde força e mostra que o presidente americano assume posições contraditórias: ora afirma que sua estratégia se pautará pelo afastamento de questões que, de acordo com ele, não dizem respeito aos interesses americanos, ora expande novamente a agenda do país. Afinal, quais são os interesses de fato dos Estados Unidos? Dificilmente será possível determiná-los e estabelecer até que ponto Trump define esses interesses em termos universais, como fizeram anteriormente os neoconservadores no governo Bush Jr.

Em discurso, Trump reiterou a necessidade de ação do mundo “civilizado” para evitar que a Síria ou outros países usem armas de destruição em massa. Essa narrativa não é nova, pelo contrário, foi usada reiteradamente nos governos anteriores como forma de tentar delimitar o inimigo – mesmo que genericamente. O presidente norte-americano não citou, porém, o governo russo em nenhum momento, o que deixa ainda mais dúvidas sobre a possibilidade de ter havido contato anterior ao ataque.

Trump delineia assim seu perfil e de seu governo. Um presidente objetivo, de pouca negociação e que segue sua palavra. A falência do pedido americano de resolução no Conselho de Segurança da ONU para uma ação conjunta contra o governo de Assad praticamente legitimou o governo americano a agir unilateralmente. Além da incapacidade das organizações internacionais de determinarem planos e ações com vistas a acabar com o conflito, a presença da Rússia e sua constante assertividade também reforçaram o argumento pró-intervenção – especialmente em um contexto de melhora da posição síria que, em última instância, poderia significar a garantia dos interesses russos na região.

O que se apreende desse ataque? Que o governo Trump está disposto a escalar o conflito, pelo menos até certo ponto; que a presunção de isolacionismo não se corrobora empiricamente; e que a instabilidade e a falta de governança no sistema internacional são marcas de nosso tempo. Some-se a isso um presidente fora do establishment político e temos a fórmula perfeita para a imprevisibilidade. Se antes podíamos pensar em médio e longo prazo, com interesses bem definidos, agora as análises e previsões serão mais conjunturais. Por ora, resta aguardar a resposta russa.

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Lucas Leite

sobre Lucas Leite

Graduado em Relações Internacionais pela PUC-MINAS, Mestre e Doutorando pelo PPGRI San Tiago Dantas. Foi Pesquisador Visitante na Georgetown University (Washington/EUA), onde fez doutorado-sanduíche (BEPE-FAPESP) com pesquisa sobre História e Política Externa dos Estados Unidos no século XIX e XX. É professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e das Faculdades Integradas Rio Branco (FIRB). Trabalha especialmente com temas de Política Externa Norte-Americana e Abordagens Pós-Estruturalistas.

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